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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

‘Luta do MST de hoje é contra o modelo do capital na agricultura e necessita de toda a sociedade’

Escrito por Gabriel Brito e Valéria, da Redação

Segunda, 10 de Fevereiro de 2014

x100214_gilmarmauro_jpg_pagespeed_ic_GJPPuf3yrmA semana começa com um marco histórico da luta social brasileira: o VI Congresso do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), no exato momento em que celebra seus 30 anos. Como anunciado, trata-se de um momento de autocrítica e reflexão, de um movimento que marcou época em sua luta por justiça no campo e agora se vê cercado pelos dilemas de um novo momento, entre eles, o abandono da reforma agrária – inclusive pelos próprios governos que sempre se identificaram com a luta pela terra.

Em entrevista ao Correio da Cidadania, Gilmar Mauro, dirigente nacional do MST, faz um apanhado histórico, ressalta a trajetória do movimento, mas reconhece a urgência de se estabelecerem novas pautas diante da sociedade, atualizando os conceitos sobre a necessidade da reforma agrária no atual contexto político da agricultura brasileira.

“Não se trata de fazer uma reforma agrária que apenas distribua a terra, para disputar mercado com o agronegócio na base do produtivismo burro. Trata-se de mudar o modelo agrícola, os paradigmas tecnológicos de produção e, claro, de um reordenamento fundiário. Não é só distribuição de terra, mas é também assentar um novo modelo agrícola”, afirma.

A respeito do desempenho dos governos recentes, apenas desengano, refletido não só em números de desapropriações e assentamentos, mas também em um fato emblemático: “Não tivemos nenhuma reunião com a presidente Dilma, pra se ter ideia. Não que reunião resolva problemas, mas até com FHC tivemos várias reuniões. E com a Dilma, nenhuma. Em termos de desapropriação, é vergonhoso, não tem nada”, lamenta.

A entrevista completa com Gilmar Mauro pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Inicialmente, que balanço você faz dos trinta anos de história do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra?

Gilmar Mauro: Há várias coisas importantes nos 30 anos do movimento. A primeira é que o MST é uma das organizações que está na história da luta pela terra e pela reforma agrária no nosso país. Um herdeiro, continuador de tais lutas. Também porque é uma das organizações camponesas de maior tempo de vida. Outras duraram muito menos, foram reprimidas etc. E, nesses 30 anos, como fruto do aprendizado histórico nas lutas do Brasil, desenvolvemos várias questões que, a meu ver, são importantes:

1) estabelecemos com clareza um rumo a ser seguido, qual seja, lutar pela terra e pela transformação social;

2) estabelecemos que isso será alcançado por meio da luta social, sem outra alternativa. Não porque gostamos ou achamos bonito, mas por ser uma condição histórica da classe trabalhadora e porque a luta é um processo pelo qual os trabalhadores se tornam sujeitos e protagonistas da própria história. Além das conquistas, é através disso que se dá um processo de elevação do nível de consciência e formação;

3) a partir desses dois grandes ingredientes, construímos uma organização interna para além das demandas da reforma agrária, pura e simplesmente. Tem-se um movimento que trabalha na educação, como, por exemplo, na alfabetização de jovens e adultos, mas também em parcerias, no sentido de que nosso povo, trabalhador, possa ter acesso ao ensino superior, pós-graduação etc. Desenvolvemos política de formação, de comunicação, temos uma escola própria... Enfim, para além da luta pela reforma agrária, desenvolvemos modos de produção nos assentamentos, a agroindústria, e assim por diante, com organicidade;

4) construímos um movimento com unidade interna. Cheio de contradições, como a vida é, mas unidade em torno de um projeto e de ações, o que nos permitiu fazer muitas lutas pelo Brasil;

5) construímos um movimento com articulação internacional. A própria Via Campesina é fruto desse processo que ajudamos a construir. Entendemos que as mudanças no Brasil são parte de mudanças estruturais em todo o planeta. E mesmo com outras contradições do movimento camponês, há pontos e projetos em comum. E ousaria dizer que, na atualidade, esta é uma das poucas organizações com funcionamento de escala planetária;

6) construímos um movimento que, além de colocar questões imediatas, coloca questões políticas, em busca de diálogo entre a luta econômica e a luta política. Buscamos trazer ao presente o que se quer no futuro. Exemplo: vamos a um congresso cuja metade do tempo será dedicada à autocrítica, pois é uma obrigação, uma tarefa política. Vamos discutir a participação das mulheres e todos os problemas que ainda temos. É um dos movimentos que, de fato, conseguem fazer tal exercício. É aquilo que a agricultura nos ensina: se quisermos colher abacate, temos que plantar abacateiro. Vamos tratar da abertura da participação às mulheres, da formação e integração de novos militantes etc.

Por fim, há a questão da dignidade e da auto-estima de uma categoria que, no Brasil, sempre foi relegada ao terceiro escalão, no caso, os sem terras. Portanto, através da luta e organização, exaltamos a dignidade humana das pessoas, ao mesmo tempo em que lhe damos um sentido político. O MST é um interlocutor e agente político no Brasil, fruto de seu processo de 30 anos.

Tem reforma agrária? Ainda não. Temos política de assentamentos, como fruto de muitas lutas e mortes.

Correio da Cidadania: Qual é, mais especificamente, a nova leitura do movimento para a reforma agrária no atual momento, face à citada hegemonia do agronegócio e à predominância de um modelo agrícola fortemente hegemonizado por grandes oligopólios?

Gilmar Mauro: É um debate que vocês, da chamada “mídia alternativa”, terão de nos ajudar a travar com a sociedade. Temos de colocar questões do tipo: que uso a humanidade, particularmente os brasileiros, quer dar à terra, à água, à biodiversidade, aos recursos naturais em geral? Se for o uso atual, de hegemonia do capital, não precisa de reforma agrária. Que tipo de comida queremos consumir? Se for o atual, talvez tampouco precise de reforma agrária. E que paradigmas tecnológicos de produção usaremos no próximo período?

A questão envolve o conjunto da sociedade. Se quisermos dar outro uso aos recursos naturais, com outro tipo de alimentação, se quisermos produzir de forma mais sustentável, com menos impacto ao meio ambiente, e, principalmente, colocando os trabalhadores no centro, diminuindo a penosidade do trabalho agrícola e, ao mesmo tempo, garantindo produtividade, a reforma agrária é uma das coisas mais modernas que existem.

No nosso modo de ver, esse é um debate necessário, pois não se trata de fazer uma reforma agrária que apenas distribua a terra, para disputar mercado com o agronegócio na base do produtivismo burro.

Trata-se de mudar o modelo agrícola, os paradigmas tecnológicos de produção e, claro, de um reordenamento fundiário. Não é só distribuição de terra, mas é também assentar um novo modelo agrícola. O debate de reforma agrária vai girar em torno disso no próximo período. Além, é claro, de muita luta e mobilização.

Correio da Cidadania: O que pensa sobre essa nova postura e como você tem enxergado, nesse sentido, o movimento neste atual momento histórico?

Gilmar Mauro: Houve mudanças. Diria até que, nos anos 2000, vivemos uma ascensão muito grande, com muitas lutas, havia muita gente acampando. Mas a própria mudança do país, com situação de pleno emprego relativo (emprego precário, evidentemente, mas com trabalho), faz com que, apesar de o sonho da reforma agrária continuar presente em milhões e milhões de pessoas, a situação seja diferente daquela da década de 90, pois a maioria das famílias não fica no acampamento o tempo todo. Porque está trabalhando, se sustentando. Aí, vem pros acampamentos nos finais de semana, nas assembleias, mas não tem aquela mesma disponibilidade que tinha nos grandes acampamentos que fizemos na década de 90. Levávamos gente pra participar de mobilizações urbanas, cursos de formação... Hoje, tem menos gente morando nos acampamentos, o que não significa ter diminuído a necessidade e vontade de luta dos trabalhadores.

A classe trabalhadora, na atual fase do capitalismo, não vive no campo, vive trabalhando fora. Aliás, é a única alternativa. Ou vende o que os outros produziram, ou produz e vende, ou vende a força de trabalho.

Os momentos de luta da classe trabalhadora são sazonais, uma greve aqui, outra acolá, assim por diante. No nosso caso, não é diferente. Digo tudo isso pelo seguinte: a partir de 1995, quando o movimento sindical de certa forma entrou em refluxo, pela derrota da greve dos petroleiros, nos colocamos em posição de certa arrogância. E continuamos avançando. A partir da década de 2000, por volta de 2002, 2005, vimos uma reestruturação produtiva no campo que nos colocou numa outra condição.

Penso que o MST faz uma releitura não para diminuir e parar de fazer luta, pelo contrário, é para buscar um salto de qualidade. No entanto, há outro ponto que gostaria de colocar aqui: embora existam críticas ao MST, vejo-o como um dos maiores movimentos sociais da atualidade, sem dúvidas. Vamos botar 15, 16 mil pessoas no nosso congresso, fazer uma autocrítica interna e jogar pra frente, junto com nossa categoria. Uma organização que não responde às necessidades de sua categoria, que não faz lutas, não tem sentido de existir. Prefiro errar coletivamente do que acertar sozinho.

E acredito que daremos o salto de qualidade no próximo período, tanto no debate da reforma agrária, como no processo de organização e politização da nossa própria categoria, além da legitimação do movimento, ao lado de outros setores da classe trabalhadora.

Correio da Cidadania: Como você descreve o atual quadro de disputa pela terra no nosso país, inclusive em termos de aquisição de terras por parte de grupos estrangeiros?

Gilmar Mauro: Esse é o grande nó que enfrentamos. Na década de 90, estávamos em ascensão e enfrentávamos o latifúndio atrasado. Hoje, com maiores dificuldades de mobilização, por se tratar de outra classe trabalhadora, enfrentamos um latifúndio mais moderno, do capital financeiro. Além da aliança do agronegócio com os meios de comunicação, o aparelho da grande mídia, uma situação difícil.

Do ponto de vista macroeconômico, tanto no governo FHC, como no governo Lula e na campanha de Dilma, esse mesmo modelo foi utilizado como forma de equilibrar o balanço de pagamentos. Ou seja, o Brasil tem um déficit muito grande nos chamados serviços – em função do pagamento de juros, da remessa anual de lucros das empresas etc. – e busca se equilibrar produzindo commodities. Produtos primários para exportação. Assim, o campo brasileiro passou a ser utilizado de forma predatória pelo grande capital, que, em tempos de crise, inclusive na Europa, se utiliza de processos de extração de minerais, domínio e controle de terras.

Portanto, é a grande briga, contra o grande capital, que por sua vez investe em agricultura, por ser mais um espaço de valorização e ganho de dinheiro. O problema é o modelo, e os governos recentes o adotaram, em busca de algum equilíbrio no balanço de pagamentos. Em detrimento de não se fazer a reforma agrária, em detrimento do solo, da água, com as monoculturas e assim por diante.

Esse é o grande desafio nosso do momento, porque não é uma luta só dos sem terras. Teremos de nos articular com o conjunto da sociedade brasileira, inclusive discutindo a essência do problema. Fazer o debate a respeito, como dito, de que uso queremos dar aos recursos naturais, o que queremos de produção agrícola. Será exigido um processo de formação e debates com a sociedade brasileira.

E digo com a maior tranquilidade: ninguém luta contra aquilo que não conhece, ninguém luta sem saber por quê. De modo que temos de convocar intelectuais, pedagogos, pra fazer o debate. Se a sociedade não fizer uma crítica e não entender qual a lógica do capital, e suas consequências à própria sociedade, ninguém vai lutar. Sem esse entendimento, dificilmente conseguiremos uma luta por outro projeto, um projeto socialista.

Vejo as coisas assim, essa é a forma de evitar transformar a luta, mesmo com caráter de esquerda, numa espécie de massa de manobra. Portanto, é preciso desenvolver o processo de formação, porque não acredito em mudanças sem tal trabalho. Mudanças profundas irão ocorrer no dia em que a classe trabalhadora assumir seu protagonismo nas lutas e na própria história.

Correio da Cidadania: Como avalia o governo Dilma frente a essas discussões e, especificamente, no que se refere ao seu posicionamento face ao agronegócio e à desaceleração no processo de reforma agrária?

Gilmar Mauro: Um dos piores em termos de reforma agrária, comparável ao período Collor. Não tenho nenhuma dúvida. Não tivemos nenhuma reunião com a presidente Dilma, pra se ter ideia. Não que reunião resolva problemas, mas até com FHC tivemos várias reuniões. E com a Dilma, nenhuma.

Já em termos de desapropriação, é vergonhoso, não tem nada. A grande política da Dilma para o campo é um pouco mais de crédito e a inserção de parte da pequena agricultura dentro do mercado. Mas eu diria que o projeto é buscar inserir alguns assentados, alguns agricultores, e transformá-los em “agronegocinhos”. E o restante da população fica com política de compensação social.

Reforma agrária zero. No final do ano, desapropriaram-se umas áreas e, se nada der errado, serão assentadas umas 4 mil famílias. É evidente nosso descontentamento, de todos os camponeses em geral, com a política de governo, principalmente nos últimos três anos.

Correio da Cidadania: Qual será a postura do movimento neste ano eleitoral, com diversos interesses político-econômicos desde já pressionando o governo por grandes concessões?

Gilmar Mauro: Pra ser bem honesto, o período eleitoral é bem difícil para nós. Respeitamos, a população participa... Mas são processos tão viciados que é difícil assumi-lo como possibilidade tática de grandes mudanças. Principalmente porque as eleições são muito marcadas e dadas. Portanto, será um ano difícil para nós, sem dúvida, ainda mais com a Copa do Mundo.

Normalmente, não nos envolvemos tão diretamente nas eleições. Atrapalha. Não temos debate algum e não queremos antecipar o assunto. Tanto que no nosso congresso não há programação para falar de eleição. Os temas serão reforma agrária, participação das mulheres, desafios da classe trabalhadora, desafios internos. Discutiremos questões internas e a luta política que faremos no próximo período.

Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Reverberação Positiva

Postado: Site Arlei Medeiros 

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Já se passaram 8 meses das manifestações de junho de 2013 e sinto positivamente que de lá para cá muita coisa mudou e para melhor. As  pessoas estão mais participativas nos assuntos que envolvem o dia a dia da cidade, do estado ou país.

O ato de cobrar por uma administração mais próxima da realidade das pessoas que vivem principalmente nas periferias, está cada vez mais arrebanhando lutadores pela causa. A própria mídia se vê na obrigação de mostrar toda essa indignação popular.

Nesta semana que se passou, participei de dois atos em que a participação do cidadão chacoalhou o comodismo de governantes. Começamos por Vinhedo onde um grupo de pessoas ligado ao prefeito Milton Serafim, articulou um pedido de cassação dos vereadores Rodrigo Paixão e Valdir Barreto, ambos do PSoL e da vereadora Marta Leão (PSD). Na primeira sessão da Câmara, na segunda-feira (03/02), muitos moradores da cidade foram ouvir de perto as desculpas dos vereadores para tamanho ato antidemocrático. Não se pode mais ser de oposição, ter pensamentos contrários a outra corrente política?Teremos de viver, em pleno século XXI, o ultrapassado coronelismo?

Sorte que a população, independente de partidos políticos, pressionou os parlamentares contra  essa arbitrariedade. Dos 15 vereadores somente um votou pelo processo de cassação. O projeto foi arquivado pela Câmara. Uma vitória da população, da verdadeira política que está sempre ao lado dos movimentos sociais e da pluralidade.

No dia seguinte, na terça-feira (04/02), foi a vez dos moradores de Sumaré mostrarem indignação pelo projeto da prefeita Cristina Carrara (PSDB) que quer privatizar o Departamento de Água e Esgoto do município. Infelizmente, os vereadores diante do questionamento da população, se acovardaram e preferiram suspender a sessão. Mas que fique bem claro, os cidadãos querem explicações.  A administração precisa entender de vez que quem tem voz ativa é a comunidade. Prefeito e vereadores representam a vontade popular. Será que eles ainda não entenderam isso?

Arlei Medeiros

Presidente do PSoL Campinas

Coordenador do Observatório de Gestão Pública do Trabalhador

Randolfe se apresenta ao Brasil como pré-candidato a presidente

Pré-candidato a Presidente da República pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol), lançado pela sigla em janeiro passado, o senador pelo Amapá, Randolfe Rodrigues, mostrou ontem à noite, em cadeia nacional de rádio e televisão, as linhas gerais das propostas que apresentará como postulante ao cargo máximo da Nação. Foi o primeiro programa da legenda levado ao ar neste ano pelo rádio e pela TV. Randolfe foi ouvido e apareceu na telinha com a ex-deputada federal Luciana Genro, candidata à vice-presidente.

Randolfe criticou a relação do governo federal com o mercado financeiro, chamando-a de subserviente, em detrimento de investimentos na área social.

Durante os cinco minutos de programa, tempo definido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o pré-candidato apareceu em dois pontos extremos do Brasil – Oiapoque (Amapá) e no Chuí (Rio Grande do Sul). Segundo informação nacional do Psol, essas aparições pretendeu reforçar o caráter nacional do partido e a preocupação com os problemas de todas as regiões do país.
No programa, também foi destacado o trabalho da bancada do Psol no Congresso Nacional, formada pelos deputados Ivan Valente, Chico Alencar e Jean Wyllys, além do próprio senador Randolfe, contra os ataques das bancadas chamadas fundamenta-lista, do agronegócio e dos grandes empresários.

Para Randolfe e Luciana Genro, o governo federal prioriza o pagamento de juros da dívida e do superávit primário em detrimento de investimentos em programas sociais e na saúde e educação públicas.

Com um trecho gravado em Altamira, no Pará, o programa do Psol fez, ainda, duras críticas à política do governo federal de investimento do dinheiro público em grandes construções como a da Usina de Belo Monte.

Postado: Diário do Amapá

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Alstom admite ter pago propina em usina de SC

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Joka Madruga

A hidrelétrica de Itá foi um dos projetos do programa de privatização no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB)

03/02/2014   - Postado: Brasil de Fato

Do MAB

A multinacional francesa do setor elétrico Alstom reconheceu, segundo reportagem do jornal Folha de São Paulo, o pagamento de propina no valor de 4,85 milhões de francos (cerca de R$ 6 milhões de reais em valores atualizadas), em janeiro de 1999, para garantir a venda de equipamentos para a hidrelétrica de Itá, em Santa Catarina.

Segundo o jornal, o documento oficial, primeiro a vir a público que admite o pagamento de propina, surgiu de uma auditoria interna realizada na sede da empresa na França, em 2008. O documento teria sido assinado pelo diretor de auditoria interna, Romain Marie, e enviado ao presidente da companhia, Patrick Kron.

Além de Itá, outros nove pagamentos são citados pelo documento em hidrelétricas na Venezuela, Cingapura e Qatar, somando cerca de € 5 milhões, segundo os auditores.

Também segundo o documento, o pagamento da comissão em Itá foi feito pela Janus, offshore das Bahamas, também utilizada para pagar propina em contrato de subestações de energia em São Paulo.

A hidrelétrica de Itá foi um dos projetos do programa de privatização no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em 1995, a Eletrobras assinou a concessão para o consórcio AAI (Associação de Autoprodutores Independente), formado pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), OPP Petroquímica e OPP Polietilenos (empresas do grupo Odebrechet) e a Companhia de Cimento Itambé.

O consórcio se comprometeu a gastar R$ 658 milhões numa obra orçada em R$ 1,06 bilhão em valores de 1995 (R$ 5 bilhões hoje). A diferença (R$ 402 milhões) foi bancada pela Eletrosul, estatal que foi parceira do consórcio até 1998. Os recursos privados foram emprestados pelo BNDES.

Quem corrompe os corruptos?

Durante o segundo dia do Encontro Nacional dos Atingidos por Barragens, realizado em setembro do ano passado, aproximadamente duas mil pessoas realizaram um escracho em frente às multinacionais Alstom e Siemens, em São Paulo, para denunciar suas supostas práticas de suborno nas concessões do metrô de São Paulo e no fornecimento de turbinas e outros equipamentos para a construção das hidrelétricas de Itá e Itaipu.

Além dessas, as empresas também fazem parte do consórcio que fornecerá turbinas para a usina de Belo Monte, localizada no Pará.

Para o membro da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Robson Formica, está é mais uma prova de onde está a origem da corrupção. “As grandes empresas transnacionais tem sido a origem dos processos corruptivos. O pagamento de propinas tem sido o modo de operação da grande maioria das empresas privadas. As notícias de propinas pagas pela Alstom apenas comprovam o que o MAB vem denunciando seguidamente e que os grandes meios de comunicação evitam mostrar, já que eles são financiados por essas grandes empresas", afirmou.

Com informações da Folha de S.Paulo

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Apenas um beijo gay no horário nobre?

por Fábio Félix  PSOL Nacional

O assunto mais comentado das redes sociais, seu impacto e reflexos geram curiosidade e fomentam o debate em toda as esferas. Apenas um beijo gay no horário nobre? Talvez não! É preciso nos debruçarmos sobre seu impacto e reais desdobramentos. O beijo entre dois homens ocorrido na última sexta-feira (31) na novela global em pleno horário nobre é uma novidade que pode cumprir um papel simbólico importante. O significado da naturalização, mesmo que parcial, de uma demonstração afetiva de uma orientação sexual divergente/minoritária refém de violência sistemática no Brasil pode ser um sintoma de avanço e algum nível de superação paradigmática. Não que o beijo em si tenha este significado, mas ele é parte de um processo.
O confronto ideológico em torno da pauta LGBT tem se acirrado no último período, com a organização cada vez mais empoderada dos setores “fundamentalistas” e conservadores, e com a dificuldade do movimento LGBT de dar respostas para além da institucionalidade. Este conflito tem evidenciado cada vez mais violência, crimes homofóbicos, transfóbicos e aumentado a polarização social no que se refere às pautas libertárias, não limitadas ao campo LGBT.
A demonstração de um beijo na noite de sexta-feira parece que teve um significado de libertação, coragem para muitas LGBTs brasileiras. Comentários de “vamos às ruas”, comemorações, sentimento de conquista foram latentes na nossa comunidade que sofre em pleno 2014 uma confrontação social com resquícios inquisitórios. Este sentimento complexo gerado não pode superestimar os efeitos do acontecido, mas, também, não deve ignorar suas possibilidades. Talvez o fato possa significar mais esperança e combustível na luta contra a opressão e pela livre expressão da sexualidade.
Cristiano Lucas Ferreira, militante da Cia Revolucionária Triângulo Rosa, fez um resumo importante do resultados incertos do ocorrido em seu texto Um beijo:

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E o que irá mudar se houver o beijo na novela? Bom, pelo que sei, nada! As travas, bichas e sapas continuarão a serem assassinadas com violência, continuaremos sendo piada sem graça do Zorra Total e similares, expulsos/as de casa, das escolas ou dos hospitais, vítimas de todas as formas possíveis de violência além de temas de sermões em púlpitos ou palanques. Mas num país, alfabetizado pela TV, retratar dois homens se beijando não é só um espetáculo, é também, pedagógico.” (Texto publicado na página da Cia Triângulo Rosa no Facebook)

A Globo é progressista?
Óbvio que a existência de um beijo gay, demonstração tão trivial de afetividade ou desejo, não deve nos iludir que a Rede Globo tenha se tornado uma aliada nesta pauta ou que ela tenha algum compromisso com lutas que enfrentam o conservadorismo. Pelo contrário: a Rede Globo, uma das maiores emissoras de TV do mundo, continua sendo parte da comitiva de frente das diversas opressões de classe, raça e gênero no Brasil. Novelas, programas e toda uma linha editorial construída para manter o andar de baixo calado e subserviente aos interesses das classes dominantes. Legitimação de uma política econômica devastadora para a população, difusão de toda forma de preconceito racial, um reforço a diversas práticas machistas e também homofóbicas.
A lógica do mercado rege os interesses desta empresa, então sua sensibilidade para o tema tem relação com números e a abertura de um “diálogo” com um mercado em ascensão no Brasil. A indústria do entretenimento LGBT, as festas que faturam milhões no Brasil, o circuito das Paradas do Orgulho e etc.
Neste sentido, elogiar o beijo ocorrido na programação da Globo deve levar em conta uma análise mais complexa, que trata os fenômenos não como concessão ou possível aliança, mas enxergar a profunda pressão ocorrida nas últimas décadas que foi capaz de criar a correlação de forças para o acontecido. Ou seja, o poder popular é um elemento marcante nestas variações editoriais adotadas.
Basta nós lembrarmos o que ocorreu nas manifestações de junho, quando, após a ida de milhões às ruas, ouvimos Arnaldo Jabor pedindo desculpas e a TV Globo junto com outras emissoras poderosas protagonizando um giro ideológico de alta rotação. Não devemos nos enganar, a Globo continua sendo um forte instrumento de alienação popular. Há ainda a tentativa desta de retomar o diálogo com “setores descontentes” com a mídia brasileira. Quem não se lembra dos carros de TV apedrejados e queimados em junho de 2013? Tem crescido na população um sentimento cada vez maior de desconfiança com a mídia, e estes momentos podem servir para “quebrar o gelo”. Esta avaliação não esvazia o beijo de seus significados.
O enfrentamento ao fundamentalismo
Desde a eleição de Marco Feliciano (PSC) para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, temos nos preocupado com a organização deste setor político fundamentalista, que reúne, entre outros, o Pastor Silas Malafaia, Marcos Pereira e o Deputado pró-ditadura Jair Bolsonaro. Um possível sinal de avanço não pode nos fazer arrefecer a resistência e organização para enfrentar politicamente os sórdidos argumentos levantados por eles. Felizmente eles não representam a maioria dos evangélicos e católicos brasileiros. Aqueles com maior densidade teológica não se sentem, da mesma forma, representados por estas lideranças.
Declarações do Pastor Caio Fábio e do Padre Fábio de Melo representaram uma diferença clara de quais são os fundamentalistas e intolerantes e quem são aqueles com que há possibilidade de constituir algum diálogo democrático dentro das contradições e diferenças de concepção. Estes dois citados tratam a questão LGBT com mais respeito aos direitos civis e criticam a postura extremista e oportunista das lideranças de Malafaia e Feliciano.
Portanto, o desafio de construir novas estratégias da luta sexodiversa, ampliar a mobilização pelo casamento igualitário, por programas anti-homofobia e por uma sociedade que respeita a diversidade deve continuar nos movendo. Devemos espalhar esta necessidade e reforçar que as poucas vitórias que tivemos vieram da nossa luta e organização coletiva.
Um beijo para Dilma e Agnelo
A cena da novela e os milhões de beijos trocados todos os dias entre casais do mesmo sexo devem servir para lembrar a Presidenta Dilma de suas opções. Em nome do que se chama de governabilidade a presidenta deixa claro que prefere se aliar com os setores mais atrasados da religião, ao rifar as medidas de garantia de direitos para LGBTs no Brasil, realizar acordos em torno da retirada do PL 122 de pauta no Senado, extinguindo o Programa de educação para a diversidade nas escolas e deixando os programas de combate à homofobia no Brasil em completo abandono. Da mesma forma, o Governador do DF, Agnelo Queiroz, menos de 24h depois de publicar a regulamentação da lei que previa punições administrativas para práticas homofóbicas em estabelecimentos comerciais, revogou a decisão. Voltou atrás por pressão do fundamentalismo e mostrou claramente de que lado está.
Nossa tarefa é politizar o debate do beijo trazendo a reflexão crítica sobre a coalização governante brasileira que privilegia a aliança com o fundamentalismo, apontar os limites de um movimento LGBT que mantenha vínculo orgânico com os governos e não aposta na luta social, construir novos movimentos combativos para a disputa dos rumos da luta LGBT, e aliar as nossas mobilizações ao desafio de enfrentar o capitalismo e as diversas opressões que ele agrava e impõe. A esquerda brasileira precisa ousar subverter a lógica heteronormativa com ações que demonstrem compromisso claro com esta pauta. Para que este beijo signifique muito mais, precisamos agir!