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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

“EUA fizeram vista grossa diante do crescimento do Estado Islâmico”, afirma pesquisador

Por: Brasil de Fato

Cientista político descreve origens do Estado Islâmico, comenta os interesses em disputa por potências mundiais na Síria e fala sobre os riscos do crescimento da islamofobia.

Por Vivian Virissimo,

Do Rio de Janeiro (RJ)

obama_esta_is_118Após os ataques do Estado Islâmico em diferentes pontos de Paris, que resultaram em mais de 150 mortes e 300 feridos, o sentimento de solidariedade ao povo francês tomaram o noticiário, as conversas e as redes sociais em todas as partes do mundo. Para entender as razões do atentado e o que está sendo disputado por potências mundiais na Síria, o Brasil de Fato entrevistou o cientista político Pedro Paulo Bocca.

Brasil de Fato – Quais as razões do ataque feito pelo Estado Islâmico ocorrido em território francês na última sexta-feira. Quais são as raízes desse conflito?

Pedro Paulo Bocca – É importante entender o processo de criação do Estado Islâmico. Ele se origina no Iraque após a invasão dos Estados Unidos. Após a queda de Saddam Hussein, começa a crescer uma disputa religiosa interna entre sunitas e xiitas, já que o governo provisório eleito com o apoio dos EUA é xiita e passa a reprimir a maioria sunita. É neste contexto que nasce o Estado Islâmico, sunita, em 2004. Os Estados Unidos fizeram vista grossa diante do crescimento do Estado Islâmico, já que isso dividia o povo iraquiano e facilitava a dominação estadunidense. É bom lembrar que o Estado Islâmico foi constituído também por uma dissidência da Al Qaeda, que eram os ditos inimigos dos EUA na época. Hoje, mais da metade do Iraque é dominado pelo grupo. Com o início da guerra civil na Síria, o Estado Islâmico viu a oportunidade de expansão de fronteira e a tomada do território sírio para consolidar seu objetivo de criar um Estado em toda a região. No início do processo, as potências ocidentais acharam esse movimento conveniente, pois eram contra o governo sírio, mas isso fugiu do controle.

O que as potências têm feito atualmente diante desse cenário?

Há dois blocos atuando hoje contra o Estado Islâmico. Um, de defesa do governo da Síria, de Bashar Al-Assad, que reúne Rússia, Irã e Líbano e que atua por terra com o objetivo de expulsar o Estado Islâmico da Síria. Por outro lado, há ações coordenados por Estados Unidos e outros membros da Otan - incluindo a França - de bombardeios aéreos. Esta coalizão, durante a guerra civil na Síria, se posicionava ao lado dos rebeldes sírios, com a proposta de derrubada de Assad.

O que teria sido o estopim para o ataque da última sexta-feira?

A França tem apresentado muita resistência ao crescimento do extremismo islâmico, especialmente após o ataque ao jornal Charlie Hebdo, no começo deste ano. Além disso, o país é identificado pelo Estado Islâmico como o principal oponente europeu porque os bombardeios ao seu território, pela coalisão da Otan, são realizados majoritariamente a partir de caças franceses. Na semana passada, a França explodiu um campo de extração de petróleo no território controlado pelo Estado Islâmico. Atualmente, o grupo extremista está numa dinâmica de criar um cenário de instabilidade e tensão como resposta aos países que o tem atacado: foram os responsáveis pela explosão de um avião russo em território egípcio que resultou em mais de 200 mortes, realizaram um atentado em Beirute, no Líbano, que deixou mais de 40 mortos, e agora os atentados em território francês.

Qual o impacto na geopolítica mundial?

A Síria é o grande nó na geopolítica mundial. Mesmo que EUA e Rússia se unam para combater o Estado Islâmico e o destruam, fica a pergunta: O que fazer com esse território depois? A Rússia não abrirá mão da manutenção do governo de Bashar Al-Assad, enquanto o plano dos Estados Unidos e das demais potências ocidentais é exatamente o contrário. A Síria cumpre um papel geopolítico e econômico fundamental para os interesses russos, e Vladimir Putin não abrirá mão de Assad. Esse pós-Estado Islâmico, caso haja de fato uma reação maior, é a grande questão. Depois dos acontecimentos sexta-feira não há nada certo.

Como o Estado Islâmico poderia ser caracterizado?

Ele é talvez a grande expressão do extremismo muçulmano que tem sido historicamente construído naquela região, fomentado pelas grandes potências ocidentais. Hamas, Al Qaeda e Boko Haran são exemplos desses movimentos islâmicos muitos radicais, os chamados jihadistas que praticam a “guerra santa”. Eles objetivam a expansão do Islã e constituição de regimes de governo islâmicos através do uso da força. É importante, porém, deixar claro que estes grupos não representam de maneira nenhuma a imensa maioria dos árabes ou dos muçulmanos, que muitas vezes acabam sendo confundidos com os extremistas. De qualquer modo, nenhum desses outros movimentos citados teve algo semelhantes às condições que o Estado Islâmico possui, ele é a expressão mais radical e mais estruturada deste processo. Sua força se dá pois conseguiram se aproveitar do momento histórico. No começo dos anos 2000 o Oriente Médio estava relativamente sob controle, com Estados fortes controlados por governos que tinham legitimidade: Saddam Hussein no Iraque, Muammar Kadafi na Líbia e Bashar Al-Assad na Síria, eram um exemplo disso. Porém, a intervenção dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque cria novamente uma instabilidade política na região, que é propícia para o desenvolvimento de organizações extremistas. Como alguns Estados foram destroçados pela intervenção estrangeira, inicialmente no início da década, e mais recentemente com a derrubada de Kadafi pela Otan e a guerra civil na Síria, aumenta ainda mais a possiblidade de se organizarem com planos maiores. Hoje o Estado Islâmico tem grandes proporções, tem influência em outros países, recruta membros inclusive em outras regiões do mundo. Isso garante uma condição de articulação e um poder muito maior. É uma organização que tem grande capacidade financeira graças ao controle de áreas que produzem petróleo e gás, distribuídos pelas monarquias árabes como a Arábia Saudita, que possui fortes relações políticas tanto com o Estado Islâmico, quanto com os Estados Unidos.

Após os ataques na França, vários países estão anunciando que vão endurecer as medidas contra os refugiados. Que repercussão isso terá?

Após os últimos acontecimentos, as intervenções no território sírio e no Iraque tendem a aumentar e isso ampliará o contingente de refugiados. Após os ataques em Paris poderá haver uma diversificação do local de imigração. Com as portas europeias ainda mais fechadas, a tendência é que os refugiados mudem de destino, pode ser que haja muitas pessoas se deslocando para outros países. Ainda que a visão da mídia dê a entender o contrário, a quantidade de sírios e iraquianos que ingressam na Europa Ocidental é pequena se comparado ao número total de cerca 11 milhões de refugiados que tiveram que sair das suas terras graças a este conflito. A Turquia, por exemplo, recebeu sozinha mais refugiados do que toda a Europa.

Que impacto terá para os refugiados que já moram em território europeu?

A França, por exemplo, já enfrentava problemas com a população islâmica no interior do país, que soma entre 8 e 9% da sua população. Mas após estes atentados, a situação dos muçulmanos franceses e os espalhados pelos demais países pode ficar ainda pior. A tendência é de fechamento da política europeia, aumento da perseguição aos árabes e crescimento do nacionalismo europeu que vai cobrar da França e de outros países da Europa ações enérgicas para o conflito. Novamente, temos que reforçar que o Estado Islâmico não representa a imensa maioria dos muçulmanos, especialmente no caso dos refugiados. Pelo contrário, quem mais sofre com a ação destes grupos é a própria população árabe. Os refugiados são refugiados porque fogem justamente desses grupos, que destruíram suas cidades, seu país e sua cultura. Existem estimativas que, só em 2015, mais de 10 mil sírios e iraquianos foram assassinados nas ofensivas do Estado Islâmico na região.

A islamofobia já era um problema na Europa. Como esse sentimento de repulsa ao islamismo tende a piorar após os ataques na última sexta?

Ao contrário de outros países europeus na França os muçulmanos não foram completamente integrados à sociedade. Enquanto na Alemanha, por exemplo, isso se deu de forma menos “traumática” com os turcos ainda no século passado, na França, a integração tem sido muito difícil, são comunidades muito guetizadas, a comunidade árabe tem uma dificuldade social, política e econômica de integração com a sociedade francesa. Daí os conflitos nos últimos anos, principalmente nas periferias de Paris. Há anos existe um clima de preconceito étnico que a direita já usava com muita força. Agora, diferente dos atentados no início do ano ao Charlie Hebdo, um órgão de imprensa, agora é um ataque à França, um ataque declarado de uma força estrangeira ao Estado francês. Até mesmo no governo francês, do Partido Socialista, que podemos considerar a centro esquerda da política francesa, cresce a cobrança por uma ação enérgica. Importante ressaltar a declaração de Obama que classificou a ação do Estado Islâmico como um ataque aos valores ocidentais. É um forte contraponto a pessoas que praticam outra religião, falam outra língua e tem outros costumes.

Como fica a situação das forças de libertação que atuam na Palestina?

Há que se ter especial cuidado no que diz respeito à confusão, que na maioria das vezes é proposital, entre os exércitos de extremistas islâmicos e os movimentos de resistência nacional-popular árabes. As forças de libertação nacional que operam na Palestina e no Curdistão, por exemplo, e os governos que não pactuam o plano ocidental para a região (notadamente Líbano, com a participação do Hezbollah, Irã e, claro, Síria) tendem a estar ameaçados por uma nova ofensiva dos países da Otan na região. É importante separar as coisas. Neste sentido, é importante aumentar a atenção na Palestina. Os levantes populares que têm acontecido nos últimos meses (muitas vezes, infelizmente, também relacionados a ações terroristas) podem e serão utilizados por Israel para legitimar uma ofensiva militar de repressão nos territórios ocupados. Essa é uma questão de imensa importância

Como avalia o posicionamento do governo Dilma Rousseff diante do atentado na França?

Tímido. O Brasil tem evitado se posicionar de maneira mais contundente sobre o conflito, não é de hoje. A política externa de Dilma é mais tímida do que a que se destacou durante os dois mandatos de Lula. No plano internacional, a Rússia tem feito pressão dentro do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para que esses países que se somem na defesa do governo sírio. O Brasil tem se esquivado de tomar uma posição clara. Inclusive recentemente votou contra o governo sírio no Conselho de Direitos Humanos da ONU, numa moção sobre supostas violações direitos humanos no governo Assad. O Brasil votou diferente de Rússia e China que pediram a anulação dessa moção. O país vinha se abstendo nesse tipo de votações. Alguns analistas apontam que esse voto contrário à Síria pode ter a ver com as negociações de reaproximação conduzidas por Dilma na recente visita à Washington. Acho difícil que o governo brasileiro se posicione ao lado da coalização da Rússia ou dos Estados Unidos, caso essa bipolaridade se confirme com mais força, porque isso faria alguns dos lados descontentes com o Brasil, e este é um cenário que o governo não pode se dar ao luxo de construir neste momento.

A recepção aos refugiados sírios no Brasil tem sido satisfatória?

O Brasil tem uma contradição na questão dos refugiados sírios. O país tem sido apontado como exemplo internacional por ter feito acordo com a ONU, facilitando as questões burocráticas para a entrada de refugiados sírios no país, garantindo mais direitos e menos problemas legais, por exemplo, para a obtenção de vistos de trabalho e do Registro Nacional de Estrangeiro. Por outro lado, os sírios que chegam aqui não têm assistência nenhuma. Não há qualquer apoio para garantir a inserção no mercado de trabalho, por exemplo, mesmo para profissionais qualificados que chegam nestas condições. Além de problemas com moradia, educação, o aprendizado do português, enfim, uma série de problemas. Cerca de 2 mil sírios estão refugiados hoje no Brasil. É um contingente pequeno, se compararmos com o todo, mas ainda assim é necessário que existam políticas públicas que facilitem a inserção destes refugiados em nossa sociedade. Em São Paulo, que é a cidade que mais tem recebido os refugiados, a inserção deles tem se dado mais a partir de iniciativas da sociedade civil e de organizações internacionais como a Acnur (Agência da ONU para Refugiados) do que do próprio Estado brasileiro.

Você considera que este atentado facilita a aprovação da lei antiterrorismo no Brasil?

É muito possível. Desde os ataques isso já está sendo pautado na imprensa com ênfase por conta das Olimpíadas. O Brasil não tem nenhuma relação com o conflito armado. Porém, as Olimpíadas já foram palco de atentados no passado, e o Brasil receberá delegações, como as francesas e russas, e sabemos que o Estado Islâmico poderia tentar fazer uma ação midiática. Por isso haverá pressa para aprovação de uma lei antiterror, até para dar uma resposta. Além disso, há uma pressão internacional, independente da direita brasileira. Entre os mais importantes países do mundo, o Brasil é o único que não tem uma lei antiterror clara e o país sempre foi cobrado nesse sentido. Esse grande evento e a agenda antiterror pós-atentados na França só vai fazer com que esta pressão aumente. O problema é que, pela maneira com que esta lei está sendo construída no Brasil, são os movimentos populares que criticam ou contestam o Estado que acabarão sofrendo as consequências, caso essa lei seja aprovada. Como já foi dito que é feito em relação aos movimentos de resistência popular árabe, a direita brasileira vai aproveitar a lei para vincular os movimentos sociais ao terrorismo, aumentando ainda mais a criminalização da luta social e a repressão. Não podemos vacilar em relação a isso, e devemos lutar pelo direito legítimo de organização e de luta popular, que nada tem a ver com o terrorismo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Dilma impõe regra que adia aposentadoria integral

INTERSINDICAL Central da Classe Trabalhadora

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Fórmula 90/100 a partir de 2022, na prática, forçará trabalhadores a cair no fator previdenciário.

A lei que institui as novas regras para a aposentadoria foi sancionada pela presidenta Dilma Rousseff e publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira (5). A mudança permite que o trabalhador ganhe a aposentadoria integral quando atingir a fórmula 85/95, que é a soma da idade e do tempo de contribuição para mulheres e homens, respectivamente. Já o artigo que autorizava a “desaposentação” (que permitiria ao aposentado que segue trabalhando fazer novo cálculo do benefício) foi vetado.

A fórmula 85/95 será válida até 31 de dezembro de 2018. A partir daí, essa soma será acrescida em 1 ponto de dois em dois anos até 2026, quando a fórmula passará a ser 90/100.

“A fórmula 85/95 para aposentadoria integral é minimamente aceitável, frente ao fator previdenciário. No entanto, somos contrários à regra da progressividade no sentido de que ela onera especialmente quem vive desde cedo do seu trabalho, já que, até 2022, esta fórmula se altera para 90/100”, explica Edson Carneiro Índio, secretário-geral da Intersindical Central da Classe Trabalhadora.

“Esta progressividade é mais um ataque às trabalhadoras e aos trabalhadores brasileiros. Entendemos que quem tem de pagar esta conta são os ricos, por meio de taxação das grandes fortunas, do imposto sobre grandes heranças, da reforma tributária progressiva, da auditoria da dívida pública e de mudanças na política econômica”, afirma Índio.

As novas regras para a aposentadoria já estavam editadas em uma Medida Provisória 676/2015. A MP foi criada em alternativa a uma proposta aprovada no Congresso Nacional, que acabou com o fator previdenciário e permitia a aposentadoria integral com a fórmula 85/95, mas não previa a progressividade da soma.

ENTENDA COMO FICOU A PREVIDÊNCIA

FÓRMULA 85/95: A mulher terá direito a adotar a fórmula se tiver, pelo menos, 30 anos de contribuição, e o homem, se tiver completado 35 anos de contribuição ao INSS. A vantagem desta fórmula é que o trabalhador ganha aposentadoria integral, escapando do fator previdenciário, que é aplicado hoje e que reduz, em média, 30% dos benefícios. Essa fórmula já é aplicada no setor público e conhecida dentro do próprio governo como um “fator previdenciário do B”. A proposta acaba com a aplicação automática do fator previdenciário no cálculo da aposentadoria.

FÓRMULA SERÁ ATUALIZADA PROGRESSIVAMENTE: Como a expectativa de vida do brasileiro tem aumentado, a fórmula 85/95 será corrigida ao longo do tempo, aumentando o número a ser atingido pelo trabalhador ao somar idade e tempo de contribuição. Na prática, com a correção, o trabalhador terá que trabalhar um pouco mais para se aposentar. A atual fórmula valerá até 31 de dezembro de 2018, o que beneficia o trabalhador. O governo já queria corrigir a tabela em 2017.

TABELA:

85/95: Até 31 de dezembro de 2018, valerá a atual fórmula 85/95, pela qual a soma da idade e o tempo de contribuição deve ser de 85 para as mulheres e 95 para os homens. Hoje, por exemplo, uma mulher poderia se aposentar com 30 anos de contribuição e 55 anos de idade.

86/96: A tabela será corrigida em 31 de dezembro de 2018 em um ponto, passando para 86 para mulheres e 96 para homens. E valerá até 31 de dezembro de 2020.

87/97: A tabela será novamente corrigida em 31 de dezembro de 2020, passando para 87 e 97, para mulheres e homens, respectivamente. E valerá até 31 de dezembro de 2022.

88/98: A tabela será atualizada em 31 de dezembro de 2022 em mais um ponto, passando para 88/98. E valerá até 31 de dezembro de 2024.

89/99: A tabela será corrigida em 31 de dezembro de 2024 e a soma 89/99 valerá até 31 de dezembro de 2026.

90/100: A tabela terá uma última correção em 31 de dezembro de 2026, chegando à soma máxima de 90/100. O governo queria atingir esse topo bem antes, mas o Congresso mudou os prazos de alteração das tabelas, adiando essa soma final em cerca de cinco anos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Movimentos vão às ruas celebrar 10 anos da derrota da Alca

Por: Brasil de fato

Atos vão acontecer em 20 cidades na América Latina. “O desafio é identificar os novos dilemas colocados para as organizações populares”, diz brasileira.

Por Bruno Pavan,

De São Paulo (SP)

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Foi no dia cinco de novembro de 2005 que a proposta da Área de Livre Comércio Entre as Américas (Alca) foi oficialmente sepultada na IV Cúpula das Américas, na cidade argentina de Mar del Plata. Lembrando a data dez anos depois, dezenas de movimentos vão voltar às ruas para a realização da Jornada Anti-Imperialista.

A intenção é analisar a vitória que os povos tiveram contra o imperialismo, mas também colocar os próximos desafios que estão postos para os movimentos populares. Paola Estrada, da Secretaria da Articulação dos Movimentos Sociais da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), alerta que, mesmo sem a Alca, os Estados Unidos conseguiram avançar em acordos bi e multilaterais com países do continente e com a Aliança do Transpacífico (TPP).

“O TPP nos deixa em alerta, porque vai pra além do acordo de comércio de mercadorias e passa para a área de serviços. Além disso, [existem] todas as movimentações desse ano e como se usam as crises econômicas e políticas no Brasil pra pautar esses acordos como saída”, criticou.

Apesar disso, Paola reforçou que desde o fracasso da Alca os governo progressistas da América do Sul apostaram no fortalecimento da integração regional tanto política quanto economicamente e minaram o poder estadunidense na região. “Aconteceu a ampliação do Mercosul, a criação da Unasul e da Celac, que surgiram em contraposição ao domínio político dos Estados Unidos na Organização dos Estados Americanos (OEA). Além disso foi criada a Alba, protagonizada por Venezuela e Cuba”. 

Para comemorar a vitória dos movimentos sociais, mais de 20 cidades pelo continente terão atos e atividades de rua. Em São Paulo o protesto acontecerá na Praça do Patriarca, a partir das 15 horas, na quinta-feira (5).

sábado, 3 de outubro de 2015

Simpósio comemora os 70 anos da Federação Sindical Mundial

Por: INTERSINDICAL CENTRAL DA CLASSE TRABALHADORA

Foto: Nelson Ezídio

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Representantes da Intersindical Central da Classe Trabalhadora participam de encontro que reúne lideranças sindicais de diversos países

Os 70 anos da Federação Sindical Mundial (FSM) estão sendo comemorados com a realização do Simpósio Sindical Internacional, de 1º a 3 de outubro, em São Paulo, no Novotel Jaraguá.

O Simpósio discute soluções e estratégias de resistência à crise do capitalismo mundial, como a segurança dos empregos, a conjuntura e os desafios para a classe trabalhadora.

Ricardo Saraiva Big, presidente do Sindicato dos Bancários de Santos e Região e diretor da Intersindical, destaca que a grande mídia ignora, por exemplo, “a verdade imperialista que se esconde no deslocamento de milhares de pessoas e de refugiados”.

“Tudo o que está acontecendo é fruto de uma política imperialista que abriu as fronteiras ao capital, às mercadorias e ao lucro, mas não às pessoas”, afirma Big.

O evento reúne 116 representantes de 75 organizações sindicais e sociais de 37 países. “Viva a FSM e os seus 70 anos de luta!”, ressalta o diretor da Intersindical.

Federação Sindical Mundial

A FSM surgiu em outubro de 1945, em Paris, com a participação de 56 organizações nacionais de 55 países e 20 organizações internacionais, representando 67 milhões de trabalhadores e trabalhadoras. Sua sede está localizada em Atenas (Grécia).

Hoje a entidade conta com cerca de 80 milhões de membros em 120 países e se organiza na forma de Congresso Sindical Mundial, Conselho Presidencial e Secretariado, além de escritórios regionais (por continente) e as chamadas Uniões Internacionais Sindicais (UIS), que organizam os trabalhadores por categoria.

Leia também: Viviana Abud, da FSM: a questão de gênero é uma luta política que necessita de formação

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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

STF abre ação contra deputado Paulinho da Força por suspeita de fraude e lavagem de dinheiro

Por: Brasil de Fato

Ministério Público alega que o parlamentar se beneficiou de um esquema de fraudes que desviou dinheiro de empréstimos do BNDES; Paulinho é tido como um dos principais aliados do presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

Da Redação

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Paulinho da Força | Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu ação penal contra o deputado federal Paulo Pereira da Silva (SD-SP), o Paulinho da Força, na terça-feira (8). O parlamentar foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por envolvimento em crimes contra o sistema financeiro e de lavagem de dinheiro, além de formação de quadrilha.

A procuradoria alega que ele se beneficiou de um esquema de fraudes que desviou dinheiro de empréstimos de financiamentos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) à prefeitura de Praia Grande (SP) e às Lojas Marisa.

Segundo a denúncia, para desviar o dinheiro, os envolvidos falsificavam notas fiscais para explicar a aplicação do dinheiro repassado pelo banco. João Pedro de Moura, ex-assessor do deputado e ex-integrante da Força Sindical no conselho do BNDES, era o facilitador do esquema.

“O denunciado [deputado], em troca de favores políticos, recebia uma parte das comissões. Que era paga à quadrilha e beneficiários desses empréstimos concedidos pelo BNDES”, disse o subprocurador Paulo Gonet.

O ministro Teori Zavascki, relator da ação penal contra o deputado, diz que as conversas telefônicas gravadas pela polícia indicam os desvios. A aceitação da denúncia foi acompanhada pelos ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli, em sessão da Segunda Turma do STF.

Cheques e planilhas apreendidos mostram a divisão dos valores recebidos por consultorias inexistentes na conta da ONG Meu Guri, que funciona no mesmo prédio da Força Sindical, para ocultar a origem do dinheiro.

Defesa

A defesa de Paulinho alega que ele não tem envolvimento no suposto esquema e que foi vítima de "tráfico de influência" por membros da suposta quadrilha. Estes usariam o nome do deputado, segundo seu advogado, para justificar o valor dos serviços de consultoria cobrados pela empresa.

Na tribuna, o advogado Marcelo Leal afirmou "A fim de aumentar sua participação no resultado do trabalho de consultoria, criaram uma ficção de que algumas pessoas, entre elas Paulo Pereira da Silva, receberia um valor que incorporava o valor que eles receberiam".

Paulinho é presidente nacional do partido Solidariedade e presidente licenciado da Força Sindical. Atualmente, é tido como um dos principais aliados do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e um opositor da presidente Dilma Rousseff, sobre a qual defende o impeachment.

sábado, 5 de setembro de 2015

Na Expointer, Via Campesina cobra criação de um programa nacional de produção de alimentos saudáveis

Brasil de Fato

“Precisamos incentivar a alimentação saudável no Brasil. Assim como tem para o agronegócio produzir e exportar, nós queremos um programa específico de apoio à produção de alimentos”, disse Emerson Giacomelli

04/07/2015

Por Catiana de Medeiros,

De Esteio (RS)


Na cerimônia de abertura oficial do Pavilhão da Agricultura Familiar, localizado na 38ª Expointer, em Esteio (RS), nesta quinta-feira (3), o assentado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e representante da Via Campesina, Emerson Giacomelli, cobrou do governo federal a criação de um programa nacional de produção de alimentos saudáveis e de apoio à comercialização.

Precisamos incentivar a alimentação saudável no Brasil. Assim como tem para o agronegócio produzir e exportar, nós queremos um programa específico de apoio à produção de alimentos, principalmente agroecológicos, com linhas de crédito, assistência técnica e infraestrutura”, declarou Giacomelli.

Bionatur

Foto: MST

Para fomentar esse tipo de produção e abrir portas de comercialização aos agricultores familiares, o assentado defendeu o fortalecimento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e de programas já existentes, como o de aquisição de alimentos (PAA).

A Conab precisa ser vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário para que se torne uma ferramenta fortalecida de apoio à agricultura familiar e para que mais programas sejam criados e outros ampliados. É por isso que também reforçamos nossa posição de não concordância da junção do MDA a outros ministérios ou então à sua extinção, e defendemos a integração da Conab”, apontou.

Conforme o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, que também participou da cerimônia, a Expointer mostra o avanço gaúcho na consolidação da agricultura familiar, vinculando-a à três objetivos estratégicos ao fortalecimento do setor: o cooperativismo, a agroecologia e a agroindústria.

Com a agregação de valor e espaços de comercialização, que possibilitem a venda direta do produtor ao consumidor, vamos superando os atravessadores e aqueles que querem ganhar dinheiro especulando o direito fundamental à alimentação saudável, por meio da regularidade, quantidade e qualidade. É um sentimento de que nós estamos cumprindo os nossos compromissos e promovendo o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar”, argumentou Ananias, que também reafirmou o compromisso de assentar, até 2018, todas as famílias acampadas no Brasil. “Queremos assentá-las em condições dignas”, concluiu.

Feira da Agricultura Familiar

Em sua 17ª edição, a Feira da Agricultura Familiar, localizada na quadra 22 do Parque de Exposições Assis Brasil, na Expointer, conta com 239 empreendimentos, entre agroindústrias, artesanato e flores, e praça de alimentação.

Ao todo, expositores de 136 municípios, representados por 1.060 famílias de agricultores, participam da feira. Entre eles estão assentados de quatro cooperativas do MST: de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), de Nova Santa Rita; de Produção Agropecuária Cascata (Cooptar), de Pontão; dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap), de Eldorado do Sul; e Agroecológica Nacional Terra e Vida (Bionatur), de Candiota.

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Segundo Jesun da Silva, da Bionatur, a cooperativa, que tem 180 associados, expõe sementes agroecológicas de hortaliças na feira desde o ano de 2005. Nesta edição, cerca de 60 variedades, produzidas em assentamentos de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, estão disponíveis para comercialização.
A Bionatur tem vários clientes que em todas as edições da Expointer vem até a feira comprar nossas sementes. Então para nós isso é muito bom, pois incentiva e fortalece o nosso trabalho”, ressaltou Silva.

Para o assentado Cleuvani Terebinto, da Cooptar, a feira potencializa a marca da cooperativa, que produz salame e copa há 25 anos e tem o envolvimento de 12 famílias.

Comercializamos nosso produtos na feira há 3 edições, mas este ano estamos tendo uma venda muito significativa, que nos abre perspectivas para novos mercados, além da Expointer, em outras regiões do estado, como na Metropolitana. O pessoal está conhecendo nosso produtos e gostando, isso é muito importante para nós”, finalizou Cleuvani.

A Feira da Agricultura Familiar vai até o próximo domingo, (6). Quem passar no pavilhão pode almoçar na cozinha da Cootap, onde está sendo servido arroz carreteiro, massas e saladas, e adquirir queijos, caldo de cana e sucos naturais de abacaxi, amora, uva e laranja, produzidos por famílias assentadas do MST, além de outros produtos, como o arroz agroecológico

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Energia solar: por que não deslancha?

Escrito por Heitor Scalambrini Costa

Correio da Cidadania

energia solarA capacidade instalada no Brasil, levando em conta todos os tipos de usinas que produzem energia elétrica, é da ordem de 132 gigawatts (GW). Deste total, menos de 0,0008% é produzida com sistemas solares fotovoltaicos (transformam diretamente a luz do Sol em energia elétrica). Só este dado nos faz refletir sobre as causas que levam nosso país a tão baixa utilização desta fonte energética tão abundante, e com características únicas.

O Brasil é um dos poucos países no mundo que recebe uma insolação (número de horas de brilho do Sol) superior a 3000 horas por ano. E na região Nordeste conta com uma incidência média diária anual entre 4,5 a 6 kWh. Por si só estes números colocam o país em destaque no que se refere ao potencial solar.

Diante desta abundância, então porque persistimos em negar tão grande potencial? Por dezenas de anos, os gestores do sistema elétrico (praticamente os mesmos) insistiram na tecla de que a fonte solar é cara, portanto, inviável economicamente quando comparadas com as tradicionais. Até a “Velhinha de Taubaté” (personagem do magistral Luis Fernando Veríssimo), conhecida nacionalmente por ser a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo, sabe que o preço e a viabilidade de uma dada fonte energética dependem muito da implementação de políticas públicas, de incentivos, de crédito com baixos juros, de redução de impostos. Enfim, de vontade política para fazer acontecer.

O que precisa ser dito claramente para entender o porquê da baixa utilização da energia solar fotovoltaica no país é que ela não tem apoio e estímulo, nem deste governo e nem dos passados. A política energética na área da geração simplesmente relega esta fonte energética de produção de energia elétrica. Daí, em pleno século 21, a contribuição da eletricidade solar na matriz elétrica brasileira ser pífia, praticamente inexistente.

Mesmo com a realização de dois leilões exclusivos para esta fonte energética, claramente ficou demonstrado que não basta simplesmente realiza-los. É necessário que o preço final seja competitivo para garantir a viabilidade das instalações. O primeiro leilão realizado em nível nacional, em outubro de 2014, resultou na contratação de 890 MW, e o valor final atingiu R$ 215,12/MWh. O segundo, realizado em agosto de 2015, terminou com a contratação de 833,80 MW, a um valor médio de R$ 301,79/MWh. Ainda em 2015, em novembro próximo será realizado um terceiro leilão específico para a fonte solar.

Por outro lado, a geração descentralizada, aquela gerada pelos sistemas instalados nos telhados das residências, praticamente não recebe nenhum apoio e consideração governamental. Apesar do enorme interesse que desperta, segundo pesquisas de opinião realizadas junto à população.

Mesmo a entrada em vigor em janeiro de 2013 da Norma Resolutiva 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) – que estabeleceu regras para a micro (até 100 kW) e a mini-geração (entre 100 kW e 1.000 kW), e permitiu que consumidores possam gerar sua própria energia e trocar o excedente por créditos, dando desconto em futuras contas de luz – não alavancou o uso desta fonte energética. Os dados estão aí.

Segundo a própria Aneel, a evolução cumulativa do número destes sistemas implantados foi: de janeiro a março de 2013: 8 sistemas instalados; de abril a junho: 17 sistemas; de julho a setembro: 43; de outubro a dezembro: 75; de janeiro a março de 2014: 122; de abril a junho: 189; de julho a setembro: 292; de outubro a dezembro: 417; de janeiro a março de 2015: 541; e de abril a junho: 725 sistemas estavam instalados (deste total, 681 são sistemas fotovoltaicos, 4 de biogás, um de biomassa, 11 de solar/eólica, um hidráulico, 27 eólicos).

Números insignificantes quando comparados, por exemplo, com a Alemanha, que dispõe de mais de um milhão de sistemas instalados nos telhados das residências.

Ficam mais que evidentes os obstáculos para o crescimento e uma maior participação da eletricidade solar na matriz elétrica. O que depende para se transpor os obstáculos são políticas públicas voltadas ao incentivo da energia solar. Por exemplo: criação pelos bancos oficiais de linhas de crédito para financiamento com juros baixos, a redução de impostos tanto para os equipamentos como para a energia gerada, a possibilidade de ser utilizado o FGTS para a compra dos equipamentos e mais informação através de propaganda institucional sobre os benefícios e as vantagens da tecnologia solar.

Mas o que também dificulta enormemente, no que concerne à geração descentralizada, são as distribuidoras, que administram todo o processo, desde a análise do projeto inicial de engenharia até a conexão com a rede elétrica. Cabe às distribuidoras efetuarem a ligação na rede elétrica, depois de um burocrático e longo processo administrativo realizado pelo consumidor junto à companhia.

E convenhamos, aquelas empresas que negociam com energia (compram das geradoras e revendem aos consumidores) não estão nada interessadas em promover um negócio que, mais cedo ou mais tarde, afetará seus lucros. Isto porque o grande sonho do consumidor brasileiro é ficar livre, não depender das distribuidoras com relação à energia que consome. O consumidor deseja é gerar sua própria energia.

Ai está o “nó” do problema que o governo não quer enfrentar. O lobby das empresas concessionárias, 100% privadas, dificulta o processo através de uma burocracia infernal, que nem todos que querem instalar um sistema solar estão dispostos a enfrentar. Enquanto em dois dias instalam-se os equipamentos numa residência, tem de se aguardar quatro meses para estar conectado na rede elétrica.

O diagnóstico dos problemas encontrados é quase unânime. Só não “enxerga” quem não quer. E não “enxergando”, os obstáculos não serão suplantados. Assim, o país continuará patinando, mergulhado em um discurso governamental completamente deslocado da realidade.

Acordem, “ilustres planejadores” da política energética, pois a sociedade não aceita mais pagar pelos erros cometidos por “vossas excelências”. Exige-se mais democracia, mais participação, mais transparência em um setor estratégico, que insiste em não discutir com a sociedade as decisões que toma.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A grande maioria dos refugiados da África fica na África, afirma representante da ONU

Segundo Andrés Ramirez, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Brasil, o principal destino dos refugiados africanos não é a Europa, como muitos tendem a pensar.

Por Simone Freire,

De São Paulo (SP) Brasil de Fato

 

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Refugiados na África | Foto: ONU

Os noticiários cada vez mais recorrentes sobre as perigosas travessias migratórias de africanos para o continente europeu expõe um fato: a situação dos conflitos na África piorou e o número de refugiados é cada vez maior. No entanto, o principal destino destes refugiados não é a Europa, como pode parecer, mas continua sendo o próprio continente africano, que abriga mais de um terço destes refugiados. Essa é a realidade relatada pelo representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Brasil, Andrés Ramirez.

"Para entendermos o enorme peso dos refugiados nos países em desenvolvimento é importante sublinhar que, nas duas décadas passadas, 70% dos refugiados do mundo eram refugiados que ficavam nos países 'em desenvolvimento'. Isso desmistifica aquela ideia errada de que a maioria dos refugiados vão para os países desenvolvidos. Isso é totalmente falso. Já no ano passado, 86% dos refugiados do mundo ficaram em países em desenvolvimento", aponta Ramirez.

Segundo o relatório Tendências Globais (Global Trends, em inglês), divulgado em junho deste ano pela Acnur, os deslocamentos atingiram um nível recorde e está se acelerando rapidamente. Ao final de 2014, foram 59,5 milhões de pessoas que tiveram que deixar forçadamente suas casas, comparado com os 51,2 milhões registrados no final de 2013 e os 37,5 milhões verificados há uma década. O crescimento desde 2013 (8,3 milhões de pessoas) é o maior já registrado em um único ano.

Em nível mundial, de acordo a Acnur, também houve mudança na distribuição regional de refugiados no último ano. Até 2013, as regiões que abrigavam a maior população de refugiados eram a Ásia e o Pacífico. Como resultado da crise na Síria, o Oriente Médio e o Norte da África se tornaram, em 2014, as regiões que mais recebem refugiados.

África

Dos 15 conflitos que iniciaram ou foram retomados nos últimos cinco anos, e que fizeram como que se intensificassem os deslocamentos forçados e colocassem boa parte da população em situação de refúgio, oito estão na África: Costa do Marfim, República Centro Africana, Líbia, Mali, Nigéria, República Democrática do Congo, Sudão do Sul e Burundi.

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Dadaab, no Quênia | Foto: UNHCR/ONU

O maior campo de refugiados do mundo, Dadaab, situa-se no nordeste do Quênia, próximo à fronteira com a Somália. O território foi estabelecido em 1991 e abriga mais de 350 mil refugiados e solicitantes de asilo. O local abriga refugiados da Etiópia, Sudão, República Democrática do Congo, Eritreia, Sudão do Sul e Burundi, entre outros; e vive constantemente em conflito. Há denúncias de violações de direitos humanos, mas o Dadaab continua sendo, para muitos, a única alternativa para quem não pode viver em seu país de origem.

A maioria dos refugiados de Dadaab é da Somália, palco de conflitos internos de muitos anos protagonizado, principalmente, pelo grupo islâmico Al Shabaabe; e de um desastre natural, uma seca que assola o país. Dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), aponta que 14% da população somali – mais de um milhão de pessoas – vive no exílio.

No final de 2014, a Acnur também mostrou que os somalis são a terceira nacionalidade com maior número de refugiados no mundo, atrás da Síria (3,88 milhões) e do Afeganistão (2,59 milhões). Além do campo de refugiados queniano, Etiópia e Iêmen são os países que mais recebem pessoas vindas da Somália.

Por conta dos conflitos armados, o Sudão tornou-se o quarto país com maior número de refugiados no mundo. Em um ano, o número de deslocados aumentou consideravelmente chegando a 670 mil, em 2014.

Os sudaneses também fizeram da Etiópia, em agosto passado, o país africano com a maior população de refugiados, abrigando cerca de 630 mil pessoas até o meio do ano passado. Os etíopes passaram o Quênia, que abrigava, na época, 575 mil refugiados e solicitantes de refúgio.

"Se ainda nos focamos nos países africanos e analisarmos o número de refugiados por um dólar do PIB [Produto Interno Bruto], ou seja, como os países em desenvolvimento recebem os refugiados levando em consideração a economia deles, o número um no ranking mundial é a Etiópia, que teria 440 refugiados por dólar", exemplifica Ramirez.

Na sequência, o quinto país com mais deslocamentos forçados é o Sudão do Sul, com 509 mil pessoas, e o sexto é a República Democrática do Congo, com 493 mil. Ambos são africanos e os destinos da maioria dos refugiados destes países também é a África.

"É uma minoria deles [africanos] que conseguem fugir para outros países. Esta minoria de pessoas refugiadas que conseguem fugir para outros países, alguns vão para a Europa e outros para os Estados Unidos e até para a América Latina", pontua Ramirez ao Brasil de Fato.

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Refugiados no Dadaab | Foto: UNHCR/J.Brouwer

Segundo o membro da Acnur, também é preciso muita atenção quando avaliamos a questão da imigração no mundo, uma vez que nem todo imigrante é um refugiado. "O refugiado é um tipo especial de imigrante, aquele que teve que migrar de um jeito forçado por causa de perseguição ou por ter sido vítima de um conflito generalizado. Tem muitos outros imigrantes que simplesmente saem para tentar ter uma vida melhor, por razões econômicas, por razões de desastres naturais, para ter uma vida melhor", explica.

Alternativas

Com a intensificação dos conflitos internos na Ásia e na África, a quantidade de pessoas que se deslocam desses continentes para a Europa ou América Latina começa a se tornar mais expressivo. Da África, as principais nacionalidades que veem na Europa uma alternativa é a Eritreia, Somália, Nigéria, Gâmbia e Sudão. A principal rota destes refugiados é o Mar Mediterrâneo em que, neste ano, 2.440 pessoas morreram ao tentar atravessá-lo, documentou a Acnur.

No relatório da entidade, o Alto Comissário da ONU para Refugiados, António Guterres, criticou a abordagem da comunidade internacional para o fenômeno. "De um lado, há mais e mais impunidade para os conflitos que se iniciam, de outro, há uma absoluta inabilidade da comunidade internacional em trabalhar unida para encerrar as guerras e construir uma paz perseverante", declarou.

Na América Latina, o principal destino dos refugiados é o Brasil. De acordo com os dados mais recentes do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), vinculado ao Ministério da Justiça, o país tem 7.700 refugiados de 81 nacionalidades. A maioria deles são da Síria, seguidos pela Colômbia, Angola e a República Democrática do Congo.

O número total de pedidos de refúgio aumentou mais de 930% entre 2010 e 2013. Até outubro de 2014, já foram contabilizadas outras 8.302 solicitações. A maioria dos solicitantes de refúgio vêm da África, Ásia (inclusive Oriente Médio) e América do Sul. O refúgio é um direito de estrangeiros garantido por uma convenção da ONU de 1951 e ratificada por lei no Brasil em 1997.

Presente no debate “O Brasil diante dos desafios de um novo ciclo de imigração”, realizado no Instituto Lula, no dia 26 de agosto, o secretário Nacional de Justiça e presidente do Conare, Beto Vasconcellos, apontou que o país tem a necessidade de continuar criando estruturas institucionais para amparar estes imigrantes, seja nas condições de refugiados ou não.

Embora o Brasil tenha avançado consideravelmente nas políticas humanitárias e atuado conjuntamente com outros países da América do Sul, que demostram um Estado voltado a uma política migratória progressista, pontua ele, "nós temos hoje, infelizmente, ainda uma legislação nascida e cultivada no período ditatorial. Nossa legislação de imigração, o Estatuto do Estrangeiro, é um marco legal, filho da Ditadura. É uma lei ultrapassada, uma lei hermética, burocrática e forjada, construída sob a doutrina da segurança nacional, onde e segundo a qual, a imigração é uma ameaça. É uma lei que não prevê direitos, mas restrições".

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Doleiro Alberto Yousseff afirma que Aécio Neves recebeu propina de Furnas

Postado: Brasil de Fato

Delator também reafirmou que o ex-presidente do PSDB, Sergio Guerra, recebeu R$ 10 milhões para abafar CPI da Petrobras em 2009.

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Em acareação realizada nesta terça-feira (25) com o ex-diretor de abastecimento de Petrobras Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Yousseff confirmou aos deputados que o senador Aécio neves recebeu dinheiro desviado de Furnas. O procedimento fez parte da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras.

A revelação foi feita ao deputado Jorge Sola (PT-BA), quando este questionou Yousseff se ele confirmava que o então governador de Minas Gerais havia recebido dinheiro desviado da estatal. "Eu confirmo por conta do que eu escutava do deputado José Janene, que era meu compadre, e eu era operador dele", disse.

Além de Aécio, o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra também foi citado como receptor de R$ 10 milhões para abafar uma CPI para investigar irregularidades da Petrobras em 2009. Yousseff declarou que o dinheiro teria sido pago pela empreiteira Camargo Correa. Costa declarou ele foi procurado por Guerra e pelo deputado Eduardo da Fonte (PP-PE). "De minha parte, posso dizer que eles receberam", afirmou.

Cobertura da mídia

Muitos internautas criticaram a cobertura que a imprensa deu ao caso. O portal de notícias UOL publicou, às 19h37, uma manchete onde se lia: “Yousseff e Costa confirmam repasse de propina a Aécio e Sérgio Guerra”. Porém, às 20h24 o nome dos dois foram suprimidos do título, que se transformou em “Delatores Yousseff e Costa mencionam repasse de propinas a tucanos”. A expressão “podemos tirar se achar melhor”, utilizada em comentários relacionados ao caso no Twitter, entrou para os trending topics.

Outra que causou polêmica foi a comentarista da Globo News e colunista do Estado de S. Paulo Eliane Cantanhêde. Ela foi questionada no twitter o motivo do jornal ao qual participa, o Em Pauta, não ter tocado no assuntos dos envolvimentos dos tucanos no escândalo. Cantanhêde se defendeu dizendo que se tratava de muitas informações ao mesmo tempo e que iria “tentar encaixar” o assunto em algum de seus próximos comentários.

O portal Uol foi procurado pela reportagem mas não respondeu os questionamentos até o fechamento da matéria.

Assista o Vídeo no UOL – Click Aqui

domingo, 16 de agosto de 2015

Neste domingo de protestos contra o governo de Dilma Rousseff, Fórum selecionou as mensagens mais absurdas que correram as redes. Confira

Andrea Serpa · Professora Adjunta at UFF - Universidade Federal Fluminense

É o fracasso da educação. Claro que a língua portuguesa maltratada chama a atenção, mas a ignorância sócio,política e histórica choca ainda mais. Uma seleção bizarra de gente alienada servindo aos oportunistas de sempre sem a menor consciência de que é apenas papagaio de pirata. Um movimento sem o menor fundamento político, sem uma mínima leitura crítica da realidade. O governo merece muitas críticas, com certeza, mas não será com essa oposição estupida e obtusa que vamos fazer a democracia caminhar. Para mim, são o lixo da história triste de séculos de colonização e ditadura.

 

Por Redação FORUM

Neste domingo (16), diversas cidades brasileiras sediaram protestos contra o governo de Dilma Rousseff. Como de costume, os manifestantes levaram às ruas faixas e bandeiras com mensagens que, em sua maioria, pediam o impeachment da presidenta, criticavam o Partido dos Trabalhadores e o ex-presidente Lula ou clamavam pelo retorno dos militares ao poder.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

CNBB critica terceirização, redução da maioridade e ajuste fiscal

Postado; Carta Capital

DomSérgio da Rocha CNBB

Entidade pede ajuste "sem prejuízo à população" e lamenta as pautas conservadoras do Legislativo

Em nota que encerra sua 53ª Assembleia Geral, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) manifestou preocupação com o ajuste fiscal que o governo Dilma Rousseff pretende fazer, com o projeto de lei 4330, que libera as terceirizações em toda a cadeia produtiva e não poupou críticas a pautas conservadoras do Congresso, como a redução da maioridade penal e a PEC 215, que tira do Executivo a prerrogativa de demarcar terras indígenas.

O texto é assinado pelo cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida, que nesta sexta-feira 24 transmitiu a dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, o cargo de presidente da CNBB. Rocha prometeu manter a postura ativa da CNBB, que, de acordo com ele, continuará a "denunciar o que vai contra o reino de Deus".

Na nota, a CNBB afirma que a retomada do crescimento da economia é necessária, mas que ela "precisa ser feita sem trazer prejuízo à população, aos trabalhadores e, principalmente, aos mais pobres". Na mesma linha, a CNBB critica o PL da terceirização, afirmando que ele "não pode, em hipótese alguma, restringir os direitos dos trabalhadores", uma vez que "é inadmissível que a preservação dos direitos sociais venha a ser sacrificada para justificar a superação da crise".

A maior parte da nota é dedicada a criticar avanços conservadores no Congresso, onde, diz a CNBB, "se formam bancadas que reforçam o corporativismo para defender interesses de segmentos que se opõem aos direitos e conquistas sociais já adquiridos pelos mais pobres".

Para entidade, a redução da maioridade penal "é um equívoco que precisa ser desfeito", a PEC 215, "uma afronta à luta histórica dos povos indígenas" e o projeto de lei 3722/2012, que revoga o Estatuto do Desarmamento, uma ilusão criada pela indústria das armas, que "está a serviço de um vigoroso poder econômico que não pode ser alimentado à custa da vida das pessoas."

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Morreu hoje (13) o escritor uruguaio Eduardo Galeano, aos 74 anos

Por Químicos Unificados

Sua obra ‘As Veias Abertas da América

Latina’ é um clássico da literatura política

O escritor uruguaio Eduardo Galeano (foto) morreu nesta segunda-feira (13) em Montevidéu (Uruguai), aos 74 anos, informou sua editora a este jornal. Na sexta-feira, ele havia sido internado por causa de um câncer de pulmão.

A obra mais conhecida de Galeano é, sem dúvida, As Veias Abertas da América Latina. Nela, ele analisa a história da América Latina como um todo, desde o período colonial até a contemporaneidade, argumentando contra a exploração econômica e política do povo latino-americano, primeiro pela Europa e depois pelos Estados Unidos da América. O livro tornou-se um clássico entre os membros da esquerda latino-americana.

A publicação de Galeano era tão identificada como sendo uma obra revolucionária e de esquerda, que foi banida na Argentina, Chile, Brasil e no Uruguai, durante as ditaduras militares nesses países. Galeano chegou a ser preso em solo uruguaio, e depois obrigado a se exilar, primeiramente na Argentina, e depois, na Espanha.

43 anos

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As Veias Abertas… saiu quando Galeano tinha 31 anos. Naquela época, como admitiu depois o próprio escritor, ele não tinha formação suficiente para a tarefa à qual se dispôs.

Na 2ª Bienal do Livro em Brasília, em abril de 2014, Galeano disse que As Veias Abertas…“tentou ser uma obra de economia política, só que eu não tinha a formação necessária.Não me arrependo de tê-lo escrito, mas é uma etapa que, para mim, está superada”. O episódio demonstra que Galeano assumiu um tom mais ponderado para analisar o maniqueísmo político.

Remexer o “lixão da história”

Em seu livro mais recente, Espelhos, o autor tem o intuito de recontar episódios que a história oficial camuflou. Galeano se definia como um escritor que remexe no lixão da história mundial. Sua obra, na qual se destaca também Memória do Fogo (1986), foi traduzida para cerca de 20 idiomas.

Antes de se tornar um intelectual destacado da esquerda latino-americana, Galeano trabalhou como operário industrial, desenhista, pintor, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco, entre outros ofícios.

Assista entrevista com Galeano

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ACESSE AQUI para assistir vídeo no Canal do Unificados no YouTube, no qual o escritor Eduardo Galeano (foto acima), em entrevista, diz que a necessária utopia “está no horizonte e serve para nos fazer caminhar”. Galeano também diz que “… Seremos compatriotas e contemporâneos de todos os que tenham vontade de beleza e vontade de justiça…”

Morre o escritor Eduardo Galeano

Cronista do seu tempo, sua visão foi refletida em sua narrativa de uma América Latina unida e da busca de um mundo onde não imperasse os valores do Capital

Por: Carta Maior

Eduardo GaleanoO escritor e jornalista uruguaio, autor de livros emblemáticos como “As veias abertas da América Latina”, “Memória do Fogo” e “O Livro dos Abraços”, faleceu nesta segunda-feira, 13 de abril, em Montevidéu, aos 74 anos. O juri que lhe entregou o doutorado honoris causa da Universidade de Havana, em 2001, o definiu como “um recuperador da memória real e coletiva sul-americana e um cronista do seu tempo”.
Eduardo Germán Hughes Galeano nasceu em Montevidéu, no dia 3 de setembro de 1940. Era filho de Eduardo Hughes Roosen e de Lucía Ester Galeano Muñoz, de quem tomou o sobrenome para assinar como escritor e jornalista. Quando era um adolescente, começou a publicar caricaturas no El Sol, um pasquim socialista do Uruguai, com o pseudônimo de Gius. Apesar de ser oriundo de uma família de classe alta, ele trabalhou como operário numa fábrica de inseticidas e pintor de cartazes, entre outros ofícios.
Seus primeiros passos no jornalismo foram no início dos Anos 60, como editor do semanário Marcha e do diário Época. Depois do golpe de Estado em seu país, no dia 27 de junho de 1973, foi preso, mas libertado posteriormente, e então se instalou na Argentina. Em Buenos Aires, foi diretor da revista cultural e política Crisis, fundada por Federico Vogelius (1919-1986): “aquele foi um grande exercício de fé na palavra humana, solidária e criadora (….) por acreditar na palavra, nessa palavra, Crisis escolheu o silêncio. Quando a ditadura militar a proibiu de dizer o que ela tinha que dizer, se negou a seguir falando”, disse anos depois sobre o fechamento da publicação, que aconteceu em agosto de 1976.
A ditadura argentina, presidida por Jorge Rafael Videla, colocou seu nome numa lista negra de condenados políticos, o que o obrigou a se exilar na Espanha. Ali, ele escreve a trilogia Memória do Fogo (Os Nascimentos, 1982; As Caras E As Máscaras, 1984 e O Século Do Vento, 1986) onde revisita a história do continente latino-americano.
Cronista do seu tempo, a visão de uma América Latina unida foi refletida em sua narrativa, através de obras como Los Días Siguientes (1963) (não tem título em português), Vagamundo (1973), O Livro dos Abraços (1989), Patas Arriba: La Escuela del Mundo al Revés (1998) (não tem título em português).
Em 1985, regressou a Montevidéu, quando Julio María Sanguinetti assumiu a presidência do país através de eleições democráticas. De volta ao seu país natal, juntou-se com Mario Benedetti, Hugo Alfaro e outros escritores e jornalistas para fundar o semanário Brecha. Posteriormente, criou sua própria editora: El Chanchito. Ademais, integrou a Comissão Nacional Pró Referendo (entre 1987 e 1989), constituída para derrubar a Lei de Anistia, promulgada em dezembro de 1986, para impedir o julgamento de crimes cometidos durante a ditadura militar em seu país (1973-1985).
A obra de Eduardo Galeano recebeu galardões em diversas partes do mundo, como o Prêmio Casa das Américas, em 1975 e 1978, o Prêmio do Ministério da Cultura do Uruguai em 1982, 1984 e 1986, o American Book Award de 1989, o Prêmio Stig Dagerman de 2010 e o Prêmio Alba das Letras, em 2013.
Quando recebeu o doutorado Honoris Causa da Universidade de Havana, em 2001, o escritor disse: “Eu amei esta ilha da única maneira que é, digna de fé, com suas luzes e sombras”, enquanto o juri definiu o escritor e jornalista com a certeza de se tratar de “um recuperador da memória real e coletiva sul-americana e um cronista do seu tempo”.
Em 2004, escreveu uma “Carta ao Senhor Futuro”, que sintetiza seus anseios. “Estamos ficando sem mundo. Os violentos chutam ele como se fosse uma bola. Jogam com ele, esses senhores da guerra, como se ele fosse uma granada de mão; e os mais vorazes o espremem como um limão. Nesse passo, temo que, mais cedo que tarde, o mundo poderia não ser mais que uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem água, sem ar e sem alma”, advertiu o escritor nessa carta. “Disso se trata, senhor Futuro. Eu lhe peço, nós lhe pedimos, que não se deixe desalojar. Para estarmos, para sermos, necessitamos que o senhor siga estando, que o senhor siga sendo, que nos ajude a defender sua casa, que é a casa do tempo”.

Créditos da foto: Mariela De Marchi Moyano / Flickr

sábado, 14 de março de 2015

De guerra civil a bloqueio do Facebook: protestos geram boatos na web

Edgard Matsuki
Do UOL, em Brasília

14/03/201506h00

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Os protestos agendados para este final de semana agitaram não só o meio político, mas também as redes sociais. Em meio à discussão entre críticos e defensores do governo Dilma Rousseff, informações sobre golpe militar, guerra civil, golpe de esquerda e até o fim do Facebook no Brasil circularam na internet. Confira alguns boatos e o que dizem as autoridades sobre eles.

1 – Guerra Civil à vista. Estoque mantimentos!

Um áudio que circula nas redes sociais aponta que a "Inteligência das Forças Armadas" do Brasil está nas ruas e recomenda que as pessoas estoquem mantimentos para a Guerra Civil que deverá ocorrer entre as forças de direita e de esquerda. Primeiro vai ocorrer a intervenção militar de direita e, depois, a de esquerda.

Em uma das versões, uma pessoa se identifica como "ex-soldado Carvalhal e agora sargento Ferreira" e diz que a informação é sigilosa. Porém, no final, diz que a informação "está sendo vazado propositalmente" e pede o compartilhamento.

Em resposta, o Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx) informou, por meio de nota, que "os áudios veiculados nas mídias sociais não tem origem no Exército Brasileiro".

2 – Lula e Stédile planejam golpe de esquerda

Uma fala do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocando "o exército de João Pedro Stédile e do MST" para os protestos tem sido interpretada como uma tentativa de golpe de esquerda. A declaração de Lula foi dada durante um ato em defesa da Petrobras, no dia 24 de fevereiro. Além de Stédile, tropas venezuelanas também iriam ajudar na guerra.

No evento, Lula disse esperar que os movimentos sociais se mobilizem para defender as conquistas do governo do PT.

3 – Novo golpe militar está à vista

Assim como há pessoas falando em ditadura comunista, também fala-se em golpe militar no dia 15. Até uma suposta foto de exército marchando rumo à Brasília está circulando na web.

Em resposta sobre a possibilidade de um golpe, o Exército informou, por meio de nota, que pauta suas ações conforme o previsto na Constituição Federal. Assim, não cabe à Força Terrestre apresentar juízo de valor em relação aos assuntos políticos da Nação.

4 – Dilma vai confiscar a poupança no dia 18/3

Alguns posts em redes sociais afirmam que, no dia 18 de março, o governo vai confiscar o dinheiro das poupanças. Logo que a informação começou a se espalhar, o Ministério da Fazenda desmentiu a informação.

Não é a primeira vez que isso acontece no ano. A primeira promessa havia acontecido no dia 13 de fevereiro e dizia que o confisco seria no dia 17. Assim como da outra vez, o Ministério da Fazenda fez o desmentido.

5 - Dilma vai tirar o Facebook do ar

Esse boato é velho, mas ganha força sempre quando há instabilidade política no Brasil. Uma rápida busca no Google em com "é verdade que Dilma vai..." é completada com "desativar", "cancelar" e "fechar" o Facebook.

Para o Facebook ser tirado do ar, existiria apenas dois caminhos. O primeiro seria o governo entrar uma ação na Justiça e ela teria que ser julgada procedente. Na página da AGU não há nenhuma referência a qualquer tentativa de processo do governo contra o Facebook.

O segundo passo (e muito mais improvável) seria o governo publicar um MP extinguindo o Facebook. Não só o governo não tem motivações para fazer isso (até porque Dilma e o governo usam a rede social como ferramenta de divulgação de material) como também não há nenhuma Medida Provisória que aponte para isso.

Como não cair em boatos

Seguir alguns passos pode ajudar na hora de identificar se uma notícia é verdadeira ou não. Uma dessas dicas é verificar sempre a fonte da informação. Os boatos normalmente não citam fontes ou, quando muito, relatam fontes anônimas (um amigo, um delegado etc). Vale também ficar de olho na estrutura do texto. Textos falsos na web sempre contam com muitos erros ortográficos, de concordância, letras em caixa alta e tom alarmista.

Os boatos também, normalmente, pedem o compartilhamento da informação (essa é a forma básica de sobrevivência das mentiras). Se você vir isso em uma mensagem, desconfie. Por fim, vale sempre checar a se a informação é verdadeira em sites de notícias (como o UOL).

sábado, 7 de março de 2015

Na Grécia, Syriza abre cenário de polêmicas e interrogações

Escrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania

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Na Grécia, o entusiasmo da empolgante vitória eleitoral do partido Syriza durou apenas três dias, durante os quais Alexis Tsipras e seu braço direto, Yanis Varoufakis, o novo Ministro das Finanças, continuaram a recitar o copião do populismo eleitoreiro,  repetindo nos palanques a célebre frase “....Nunca nós iremos nos rebaixar aos homens da Troika e nunca mais seus ditames voltarão em Athenas...”.

Durante três anos, isto é, do momento em que a Coalizão de Esquerda “Syriza” se transformou em partido, Alexis Tsipras alimentou sabiamente a esperança na maioria dos gregos que, repetitivamente, votaram nele e nos deputados do Syriza, acreditando nas palavras de ordem das campanhas eleitorais, que eram claras, diretas, tal como o programa que não apresentava dúvidas, concluindo com a celebre frase: “...nunca iremos baixar a cabeça, nunca iremos  aceitar a continuação dos programas de austeridade....”.

Lindas palavras, que fizeram chorar de felicidade os gregos, tanto que, nos dias que antecederam as eleições, o que mais se escutava nas ruas era o jingle da campanha eleitoral do Syriza, “...Afinal chegou a hora de uma mudança…”. Um refrão que as rádios haviam transformado em um segundo hino nacional e que recebeu a solidariedade dos partidos da esquerda do mundo inteiro.

Syriza bicéfalo?

Hoje, devemos reconhecer que o marketing eleitoral do Syriza foi mais que ótimo. Em particular, a performance do seu líder, Alexis Tsipras, foi nota dez, do momento que soube persuadir a maioria dos gregos de que o novo governo iria batalhar intensamente em Bruxelas, na mesa de negociações, para dobrar os tecnocratas da BCE.

Excluindo poucos comentaristas – entre os quais o próprio –, todos acreditaram nas promessas de Tsipras, inclusive porque o New York Times, uma semana antes das eleições, sentenciou: “…Alexis Tsipras é o Hugo Chávez helênico, capaz de tirar a Grécia da União Europeia e romper com o Euro...”.

Um equívoco político gigantesco, que a “grande mídia” criou propositalmente, para fazer explodir o sentimento de alarmismo já existente nos países da União Europeia, à causa das ameaças dos jihadistas do IS, do caos na Líbia e da guerra na Ucrânia. Um equívoco no qual tropeçou todo mundo, de Atílio Boron a Noam Chomsky, de Tony Negri a Naomi Klein.

Mas foi na Itália que esse equívoco atingiu o nível máximo, porque, nesse país, Paolo Ferrero, líder do PRC (Partido para a Refundação Comunista), já nas eleições europeias de maio de 2014, havia tentado a carta do marketing eleitoral do Syriza, trocando o nome e o emblema do PRC para o slogan “Lista Tsipras”. Uma opção que provocou a perda de quase 3% de sufrágios, do momento que nem todos os eleitores da esquerda sabiam quem era Alexis Tsipras e porque o partido havia renunciado a sua identidade comunista!

Porém, apesar do deslavado resultado eleitoral, na esquerda italiana continuou forte a convicção de que o Syriza era “a essência da nova esquerda do século XXI”, tanto que Nick Vendola, líder do SEL (Socialismo Ecologia e Liberdade) - uma espécie de PSOL, mas muito mais parlamentar e reformista -, logo após a vitória eleitoral de Syriza, declarou: “...Alexis Tsipras, líder de Syriza, entende libertar os grupos da esquerda das aréolas da ortodoxia e dos vestígios do extremismo. De fato, ontem, Tsipras esteve com o presidente do Parlamento Europeu e do PSE (Partido Socialista Europeu), Martin Schultz, depois deverá se encontrar com Matteo Renzi, e isso significa que ele quer fazer política.... Depois da afirmação do Syriza, acredito que precisamos olhar com muita atenção o que vai acontecer nas famílias da esquerda política europeia, visto que os partidos ortodoxos, ou seja, os partidinhos comunistas, podem abandonar o GUE/NGL (grupo parlamentar da esquerda europeia), tal como fizeram os dois deputados europeus do KKE em junho do ano passado...”.

Declarações de mero oportunismo político, que pretendem mascarar e, sobretudo, esconder aos militantes da esquerda o conúbio no Parlamento Europeu com os deputados europeus da socialdemocracia alemã. Um casamento ilícito, que provocou a saída do KKE (Partido Comunista da Grécia) do GUE/NGL (Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica), porque, segundo o secretário do KKE, Dimitris  Koutsoumpas: “...o novo posicionamento político e a pressão hegemônica do Syriza e dos alemães do Die Linke (partido “A Esquerda”) no âmbito do GUE, em favor de  um maior relacionamento com os  socialdemocratas do PSE (Partido do Socialismo Europeu), na realidade acabou por desnaturar a natureza política confederativa do GUE que, originariamente, visava preservar a identidade da esquerda europeia...”.

Alinhamento com a socialdemocracia?

Em Bruxelas, as negociações entre o Syriza, o BCE e a União Europeia duraram dez dias. Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis foram os únicos representantes do Syriza, visto que, na delegação do governo grego, não havia nenhum membro da chamada “Plataforma de Esquerda”, a minoria de esquerda do Syriza. Por sua parte, a Troika era representada por Jeroen Dijsselbloem, presidente do Euro-grupo, Wolfang Scauble, ministro das Finanças da Alemanha, e Mario Draghi, presidente do BCE, todos em contato direto com a presidente do FMI, Christine Lagarde, e o primeiro-ministro da Alemanha, Ângela Merkel.

Foi nessa fase que a verdadeira essência política e ideológica dos antigos “eurocomunistas” gregos, Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, se manifestou claramente. Aliás, foi com base à lógica de um pretenso “compromisso histórico em moldes europeu” que Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis assinaram um acordo que, por um lado, é a negação do Programa de Salonico de 14 de Setembro de 2014 e, por outro, é uma reedição melhorada do antigo Memorando que o governo de Samaras assinou com a Troika (FMI, EU e BCE) em julho de 2012.

A imprensa europeia e, em particular, os jornais e as televisões da Alemanha exaltaram “o realismo político de Alexis Tsipras”, para poder estraçalhar até o fim as temáticas da esquerda do Syryza (Plataforma de Esquerda e Tendência Comunista).

Entretanto, é necessário sublinhar que o verdadeiro objetivo estratégico dos tecnocratas da União Europeia era manter a Grécia atrelada ao Euro, estritamente monitorada com os programas de austeridade da BCE. Desta forma, era evidente que o novo governo grego perderia toda sua vitalidade política, deixando de ser um reiterado exemplo de resistência na Europa. Consequentemente, o “realismo político” de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis possibilitaria evitar hipotéticas fraturas no Euro-grupo, visto que o alinhamento do Syriza com as posições conciliadoras da socialdemocracia alemã abafaria as contradições políticas na Espanha, em Portugal, na Itália e na própria França.

De fato, é necessário lembrar que, nesses países, o desemprego e a espiral recessiva chegaram aos níveis máximos à causa dos programas de austeridade e das regras financeiras europeias fixadas aos 12 de março de 2012, com o Tratado Europeu sobre Estabilidade, Coordenação e Governança. Regras que, no lugar de ajudar, deprimiram ainda mais as economias da Itália, Espanha, Portugal e França, com a introdução do Fiscal Compact e a obrigação de manter a relação entre déficit orçamentário e PIB em no máximo 3%.

Na realidade, o cerne da situação grega é de natureza política, visto que o argumento do reescalonamento da dívida ou o agendamento de novos empréstimos para realizar intervenções de caráter meramente assistenciais são elementos técnicos que podem ser enquadrados, a qualquer hora, nos diferentes programas “Salva-Estados”, que o BCE guarda nos seus cofres como uma mera reserva financeira de última hora.  Portanto, o elemento político determinante da questão grega era impedir que o Syriza radicalizasse o programa político de esquerda para a salvação da nação grega e que o apoio popular recebido por sua contraposição aos ditados de Ângela Merkel e de Christine Lagarde não se tornasse um exemplo vitorioso, sobretudo na Espanha e na Itália, onde existem forças políticas em ascensão que apostam na possibilidade de construir uma real alternativa ao fiscal compact da União Europeia  e à lógica neoliberal dos conglomerados financeiros alemães e franceses.

Um contexto que também evidenciou a ausência de uma base ideológica e de um preparo político por parte do grupo majoritário do Syriza – politicamente chefiado por Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis -, necessários para sustentar o confronto político com os tecnocratas da União Europeia e, também, com a primeira-ministra da Alemanha, Ângela Merkel, cujo governo é sustentado pelos socialdemocratas com a chamada “Grande Coalizão”.

Elementos que ficaram evidentes quando Alexis Tsipras convocou ao governo o partido da direita nacionalista ANEL, para depois empossar na presidência da República Procopios Pavlopoulos (historicamente ligado ao partido de direita Nova Democracia), no lugar de Manolis Glezos, herói da resistência ao nazi-fascismo e atual deputado europeu do Syriza.

Todas essas opções prognosticavam o alinhamento com as posições conciliadoras da socialdemocracia alemã; de fato não foi por mera simpatia que o socialdemocrata Martin Schultz, presidente do Parlamento Europeu e do PSE, dois dias depois da vitória eleitoral do Syriza, já estava em Athenas para se reunir com Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis!

Por dentro do Syriza

O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, porta-voz da ala mais conservadora da CDU, após o enquadramento do governo grego, com ar de vencedor, declarou  ...os parlamentares do Bundestang, em larga maioria, ratificaram o acordo entre a União Europeia e o novo governo da Grécia, configurando a extensão da ajuda financeira por mais quatro meses, sendo que a mesma será condicionada com a realização das reformas econômicas que o governo grego se comprometeu em realizar. Por isso, o montante de 11 bilhões de euros não ficará no National Bank of Grece, mas nos cofres do Fundo Europeu (EFSF) gerenciado pelo Banco Central Europeu...”.

É evidente que um acordo desse tipo desmascarou por completo as contradições entre a estratégia política do Syriza,  adversa aos programas de austeridade da Troika e ao progressivo endividamento de quase 153 bilhões de Euros, em grande parte utilizados para saldar as dívidas com os bancos europeus (alemães, franceses e italianos) e para o refinanciamento dos bancos gregos, e o marketing eleitoral de Alexis Tsipras, que, no último comício realizado em Athenas, aos 25 de janeiro, diante de quase cem mil pessoas,  disse:  “... Depois de ter ganho essas eleições, o pessoal da Troika nunca mais pisará o chão de Athenas!!!”.

Se Alexis Tsipras e seu braço direito, Yanis Varoufakis, tivessem logo declarado que nunca iriam romper com o Euro-grupo, mas que pretendiam, apenas, melhorar as duras condições do endividamento, realizando os programas de privatização identificados pelos técnicos do FMI, certamente muitos eleitores teriam votado nos comunistas do KKE, que sempre se manifestaram contra a União Europeia e a OTAN.  Por outro lado, se Alexis Tsipras tivesse revelado que o aumento do salário mínimo de 450 para 750 euros não seria imediato, mas gradual e, talvez, a partir de setembro de 2015, em base ao conjunto dos novos recursos financeiros, é evidente que o Syriza nunca teria ganho as eleições, e talvez nunca existiria como Partido da Esquerda Radical.

Uma consideração que reflete a análise sobre o complexo processo de transformação do Syriza em partido. De fato, em 2004, a coalizão de movimentos Synaspismós foi transformada em partido, com um programa de esquerda totalmente diferente da lógica social-democrática do PSE (Partido da Esquerda Europeia), de que, hoje, Alexis Tsipras e seu braço direito, Yanis Varoufakis, são ferventes discípulos.

Um contexto que o acadêmico marxista esloveno, Slavoj Zizek, enfocou perfeitamente em outubro de 2013 no Subversive Festival de Zagabria, sublinhando: “...a situação da Grécia e, portanto, o surgimento do Syriza nos obriga a questionar as chamadas alianças inteligentes, do momento que deveremos viver ainda várias décadas no capitalismo, isto é, com a chamada burguesia progressista ou patriótica que, de fato, tem interesse em produzir....Hoje, no capitalismo, há coisas que funcionam, como, por exemplo, a competição. Por isso o Syriza, atuando no âmbito da redistribuição global da economia, deveria tornar a vida mais simples para os capitalistas que produzem. Este seria o verdadeiro triunfo do Syriza, no sentido de que, além de apoiar os trabalhadores, seria capaz de resolver os problemas dos capitalistas. Aliás, acredito que, hoje, um capitalista honesto deveria votar para o Syriza!!!”.

Um argumento que não escapou a Paolo Ferrero, líder do PRC italiano (Rifondazione Comunista) e fiel discípulo de Fausto Bertinotti, teórico do socialismo democrático, mas também adjetivado “ ... o fomentador do anticomunismo do século XXI...”. Desde 2014, Ferrero utiliza o exemplo das vitórias eleitorais do Syriza para reformular ideologicamente o PRC italiano, com vista  a lhe tirar o “estigma de comunista” e, assim, poder abocanhar consensos no eleitorado e voltar no Parlamento.

De fato, para os órfãos do “compromisso histórico” do PCI de Berlinguer, as vitórias eleitorais e o crescimento político do Syriza se tornaram o elemento fundamental para impor o chamado “socialismo democrático”, que é uma mera forma de convivência pacífica com o capitalismo. Um contexto que, hoje, após a assinatura do acordo com a União Europeia, os grupos majoritários que controlam o partido Syriza,  os eurocomunistas do grupo AKOA, os socialdemocratas e os ambientalistas do Synaspismós e os nacionalistas de esquerda (DIKKI), não escondem mais.

Entretanto, o pretenso “controle político” do Comitê Central do Syriza e, portanto, o “controle social das massas” podem fugir das mãos de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, do momento em que os grupos minoritários de esquerda se rebelaram na última reunião do Comitê Central do Syriza, quando 5 deputados não votaram o acordo que Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis assinaram com a União Europeia, e outros 30 se recusaram a votar. Enquanto isso, as pequenas organizações da esquerda associadas ao Syriza, nomeadamente os trotskistas de Xekinima, Κόκκινο e DEA, os maoístas do KOE, os revolucionário do KEDA, os grupos feministas, os ambientalistas e os eco-socialistas, já iniciaram protestos publicamente contra a assinatura do acordo com a União Europeia.

Consequentemente, o complexo sistema de alianças e de compromissos políticos que rege o partido Syriza começou a vacilar, quando Statis Kuvelakis, um dos teóricos do partido, Dimitris Stratouli, ministro do Bem  Estar Social,  Panaghiotis Lafazanis, ministro do Desenvolvimento Econômico, Ambiental e da Energia, a presidente da Câmara dos Deputados, Zoe Konstantopoulou, e o mítico Manolis Glezos, herói nacional da resistência  ao nazi-fascismo e hoje deputado europeu, manifestaram seu aberto dissenso com Alexis Tsipras, reforçando, assim, o grupo de opositores de esquerda, reunidos na chamada “Plataforma de Esquerda”. Aliás, Manolis Glezos fez mais, ao publicar um editorial onde, textualmente, escreveu “ ...Peço desculpa aos gregos por ter apostado em uma ilusão. Eu me dissocio das opções econômicas assumidas pelo novo chefe do governo, Alexis Tsipras, visto que tentaram usar uma nova terminologia para melhorar o Memorando da Troika, sem que isso possa mudar em nada a situação da Grécia...É um mês que esperamos implementar o que está escrito no nosso programa e que prometemos realizar. Por isso peço desculpa ao povo grego por ter participado dessa ilusão!!!”.

É evidente que esse contexto vai transformar o Syriza em um grande caldeirão de ideias, reivindicações, cooptações, alianças, programas de lutas, e que, certamente, deverá estourar daqui a quatro meses, quando a Comissão da União Europeia,  o BCE e o governo alemão devem averiguar a realização dos programas de austeridade e o cumprimento das “reformas”,  com as quais o governo deverá reduzir o emprego, privatizar por completo o sistema portuário do Pireo e todas as empresas públicas, em particular as que distribuem a eletricidade e a água.

Um período que será extremamente positivo para o KKE (Partido Comunista Greco) e a confederação sindical PAME, que hoje são os verdadeiros opositores, ideológicos e políticos, ao governo de Alex Tsipras.

Por isso, o secretário do KKE, Dimitris Koutsoumpas, declarou: “…O que podemos esperar de um governo que legitima uma dívida que não foi criada para beneficiar o povo, mas apenas os bancos? Podemos contar com um governo que reduz seu orçamento para encontrar dinheiro para os grupos empresariais e que não se preocupou de impedir a fuga de 20 bilhões de euros dos bancos da Grécia? Por qual motivo deveríamos apoiar um governo que, com muita fadiga, vai conseguir poder garantir uma estável permanência na União Europeia, mantendo inalteradas todas as condições que destruíram a economia da Grécia? As poucas coisas feitas em favor do povo, tais como os cupons para dar um prato de sopa aos mais pobres, por exemplo, perdem seu valor humanitário diante das garantias que Alexis Tsipras deu à União Europeia, aos banqueiros, aos operadores da City e, sobretudo, à Confederação dos Empresários Gregos. Afinal, o que podemos esperar de um governo que se diz de esquerda, mas, na realidade, deixou inalterado o poderio dos grandes empresários gregos e das multinacionais?”.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália, editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do "Correio da Cidadania