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terça-feira, 27 de maio de 2014

Filme O Lucro Acima da Vida terá exibição piloto dia 6 de junho, em Paulínia

Sindicato dos Químicos Unificados de Campinas, Osasco, Vinhedo e região

Lucro acima da vida 01Uma apresentação piloto do filme O Lucro Acima da Vida será realizada no Teatro Municipal de Paulínia, no dia 06 de junho, com início às 20 horas. Participarão desta exibição piloto os ex-trabalhadores Shell/Basf, integrantes da Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (Atesq), dirigentes sindicais, atores, figurantes, produtores, realizadores e patrocinadores. O evento é parte integrante da programação do Sindicato Químicos Unificados pela passagem da Semana do Meio Ambiente 2014, que vai de 01 a 07 de junho. O Dia Mundial do Meio Ambiente é 05 de junho, e, tradicionalmente, o Unificados organiza atividades relativas ao tema.

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Lançamento em dezembro

O lançamento público oficial do filme O Lucro Acima da Vida será em dezembro próximo. No dia 06 de junho, em Paulínia, haverá uma exibição piloto que precederá a finalização do longa metragem.

Entre todas as dificuldades para a produção de um longa metragem por um sindicato, a última vencida foi o recebimento de autorização da Agência Nacional do Cinema (Ancine) que é uma agência reguladora que tem como atribuições o incentivo, a regulação e a fiscalização do mercado do cinema e do audiovisual no Brasil. A Ancine é vinculada ao Ministério da Cultura.

Com esta autorização passa a ser possível captar recursos, com base nas leis de incentivos audiovisuais, e a projeção do filme nas salas de cinema de todo território nacional.

assistir trailer de O Lucro Acima da Vida.

Eternizar e contar uma história de lutas e vitórias
Contra Shell/Basf, duas poderosas multinacionais
por crime de contaminação ambiental em Paulínia

Esta é uma luta que precisa ficar registrada na história. Ela deve ser eternizada e divulgada o máximo possível, por todos os meios, para que cresçam, cada vez mais, a resistência contra a contaminação ambiental, a defesa do planeta e da natureza, e que a vida e a saúde sejam colocadas acima dos interesses pelo lucro e da exploração capitalista, irresponsável e criminosa. Ou seja, que a vida esteja acima do lucro.

O filme longa metragem O Lucro Acima da Vida retrata toda a história do crime ambiental cometido pelas multinacionais Shell Brasil e Basf S.A. na planta industrial localizada no bairro Recanto dos Pássaros, em Paulínia. Ele abordará o período desde antes da denúncia se tornar pública, com o cotidiano dos trabalhadores, passará pelas manobras das duas empresas na tentativa de escaparem de responsabilizações e punições e culminará com a vitória final dos ex-trabalhadores, do Unificados, da Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (Atesq) e de entidades e pessoas que se somaram a esta luta.

Fatos reais

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O filme, uma ficção baseada em fatos reais, é rodado em locações nas cidades de Campinas e Paulínia. Cerca de cem ex-trabalhadores da Shell/Basf atuam como figurantes. O papel principal é do ator Deo Garcez. Ele interpreta o coordenador da Atesq, entidade que junto com o Unificados enfrentou os 12 anos de batalha judicial contra as duas multinacionais.

Também são atores em destaque João Vitti, Dênis Derkian, Celso Batista, Zezé Motta, Ailton Graça e Mateus Carrieri.

Para Deo Garcez, a oportunidade de participar deste filme é única. “Fazer parte de um projeto como este, que trata de uma tragédia humana e ambiental, em que tantas vidas foram perdidas, e o sofrimento ainda perdura, certamente dignifica e dá sentido a qualquer artista preocupado com sua função social”, declara.

História completa da luta

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

‘O brasileiro percebeu quais são seus direitos; o medo deixou de existir’

ESCRITO POR GABRIEL BRITO E VALÉRIA NADER, DA REDAÇÃO     

POSTADO: CORREIO DA CIDADANIA

 

x220514_mtst.jpg.pagespeed.ic.gLU-SAPOL-O país se aproxima da Copa do Mundo e as mobilizações populares parecem aquecer-se ainda mais. Enquanto os sem teto ganham os holofotes da mídia em sua sequência de ocupações e mobilizações políticas, greves começam a pipocar cada vez mais. Só em São Paulo, a semana está marcada pelos movimentos dos motoristas e cobradores de ônibus, funcionários da USP e metroviários, além de contar com mais um protesto contra os procedimentos de organização do Mundial.
 
“Eu percebo que é um momento crucial de levarmos nossas pautas de reivindicações a todas as instâncias possíveis. A partir do momento que começar a Copa do mundo, e depois com o período eleitoral, as negociações vão parar”, explicou Jussara Basso, coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em entrevista ao Correio da Cidadania.
 
Em sua opinião, não é possível prever a repetição dos manifestos de junho, mas está claro que o brasileiro adquiriu um nível maior de consciência e abraça cada vez mais as mobilizações pelos direitos e serviços públicos essenciais. “No ano passado tivemos a pauta dos 20 centavos. Hoje, são os condutores e cobradores de ônibus que param. Isso é muito importante para legitimar a soberania deste país enquanto democracia. Apoiamos todo tipo de mobilização. Penso que o momento demonstra que o brasileiro percebeu quais são seus direitos e quer se apoderar deles”, afirmou.
 
Jussara avalia que os protestos vão continuar, pois muitas pessoas teriam perdido o medo. Já o Estado, em sua visão, tem feito blefes para tentar acuar a população, mas seus representantes também têm medo de ficarem marcados pela repressão em período pré-eleitoral. “Não acredito que o país sofrerá uma grande mudança política, mas acredito que as pessoas vão votar mais conscientes e cobrar mais aquilo que tiver sido pauta das campanhas eleitorais”, completou.
 
A entrevista completa com Jussara Basso pode ser lida a seguir.
 
Correio da Cidadania: A poucos dias da Copa do Mundo e com eleições no horizonte, como você enxerga o atual momento de mobilizações dos sem teto, que têm se espalhado por diversas regiões e adquirido grande destaque no cenário político?
 
Jussara Basso: Eu percebo que este é um momento crucial para levarmos nossas pautas de reivindicações a todas as instâncias possíveis. A partir do momento que começar a Copa do mundo, e depois com o período eleitoral, as negociações vão parar - por se tratar de uma época em que o Estado e suas instâncias políticas  não negociam nem liberam nada. E aí nossas reivindicações teriam de aguardar o fim das eleições e o ano que vem.
 
Correio da Cidadania: O que você pode dizer das campanhas que o movimento tem lançado, como aquela nas cercanias do novo estádio de Itaquera?
 
Jussara Basso: O MTST faz parte de uma frente nacional chamada Resistência Urbana. Dentro dessa frente, foi criada a campanha Copa sem povo, tô na rua de novo! É ela que tem puxado as várias lutas que temos feito. A terceira mobilização é nesta quinta, 22. Chamamos a ocupação perto do estádio de Copa do Povo porque o que queremos é uma “Copa popular”, de promoção de direitos. Chamamos a campanha de “Hexa de direitos”. Dentro dela, incluímos saúde, educação, moradia, transporte público de qualidade, justiça (pois nos posicionamos contra o genocídio de pessoas da periferia, tipicamente pretas e pobres) e soberania, uma vez que a promoção da Copa do Mundo veio acompanhada de algumas leis de exceção.
 
Correio da Cidadania: O poder público tem dado respostas satisfatórias nas reuniões feitas com vocês sobre a questão da moradia?
 
Jussara Basso: O poder público funciona mediante pressão. E o que temos feito no último período é pressão para conseguir avanços nas nossas pautas. O Plano Diretor de São Paulo é exemplo disso. Conseguimos sua aprovação em primeira plenária, apesar de a repressão no dia da votação ter sido muito forte. É assim, nossas pautas avançam mediante a pressão que exercemos.
 
Correio da Cidadania: E vocês têm otimismo em relação às promessas de moradia feitas pela prefeitura?
 
Jussara Basso: Elencamos algumas áreas para que fossem marcadas no Plano Diretor como ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social). Como dito, conseguimos aprovar o Plano em primeira plenária, o que é um grande avanço no município. Ainda há uma grande briga pela frente, pela sua votação e aprovação definitiva, e também pelas áreas destinadas às ZEIS.
 
Precisamos pensar também na questão de projetos e na qualidade deles, já que o Minha Casa Minha Vida tem como dimensão mínima os imóveis 39 metros quadrados. E as empreiteiras sempre dão preferência para essa metragem. Porém, sabemos que a população carente frequentemente tem famílias mais numerosas. Assim, morar em apartamentos desse tamanho é quase inviável.
 
Além do mais, há o orçamento público que deve ser criado em torno dos projetos de moradia. A partir do momento em que se constroem moradias numa determinada região, aumenta a demanda de saúde, educação e transporte. Portanto, após a luta por moradia, há a luta por esses serviços.
 
Correio da Cidadania: Quais expectativas vocês têm em relação aos protestos e greves durante a Copa do Mundo? Acredita que teremos movimentos similares a junho de 2013?
 
Jussara Basso: Junho de 2013 foi algo inesperado. Esperamos que volte a acontecer. Não deveríamos ter de falar, mas as pessoas têm o entendimento de que a Copa custou muito dinheiro dos cofres públicos. E a verba que poderia ser destinada a ações que conformam o direito de todos acaba faltando. No ano passado tivemos a pauta dos 20 centavos. Hoje, são os condutores e cobradores de ônibus que param. Isso é muito importante para legitimar a soberania deste país enquanto democracia.
 
Apoiamos todo tipo de mobilização, sejam greves, manifestações nas periferias, no centro da cidade, dos estudantes, da classe trabalhadora etc. Penso que o momento que vivemos demonstra que o cidadão brasileiro percebeu quais são seus direitos e quer se apoderar deles. Está indo às ruas exigir que seus direitos sejam cumpridos.
 
Correio da Cidadania: Como o Estado brasileiro se prepara para tal momento? Pensam que teremos novos instrumentos de repressão colocados em prática?
 
Jussara Basso: Eu avalio que o Estado brasileiro tem sido muito cuidadoso com a questão da repressão. Hoje, percebemos que mesmo o comando da polícia militar tem buscado negociar com movimentos e manifestações para não haver confrontos, pois o mundo está com os olhos voltados ao nosso país. O que eles não querem agora é ser tachados de repressores e violentos.
 
Mas eu acredito que teremos repressão, porque as manifestações não vão parar. As pessoas estão indignadas com os gastos abusivos da Copa, indignadas com a ausência de direitos, serviços públicos etc. Acho que as pessoas estão indo às ruas com o coração na mão e o medo deixou de existir. O Estado blefou muito, equipando a polícia militar, usando carros de jato d’água etc. Tudo foi um grande blefe pra tentar amedrontar a população do país. Mas ao perceber que a população não recuou e exerce seu direito de manifestação, quem vai recuar é o Estado.
 
Correio da Cidadania: Como imagina que um eventual cenário mais efervescente por ocasião da Copa poderá influir nas eleições, considerando as maiores candidaturas? Acha que será aberto espaço para alguma surpresa?
 
Jussara Basso: Penso que o cuidado que o Estado tem tomado em relação às manifestações tem a ver com isso: depois da Copa, nós temos as eleições e todos os candidatos querem garantir seus lugares nas cadeiras do poder. E acredito que as pessoas estarão mais conscientes, vão procurar votar um pouco melhor. Não acho que o país sofrerá uma grande mudança política, mas as pessoas vão votar mais conscientes e cobrar mais aquilo que tiver sido pauta das campanhas eleitorais.
 
Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cerca de 20 mil marcham contra a Copa em São Paulo e prometem "junho vermelho"

Estados do Brasil: São Paulo

Postado: Brasil de Fato

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Divulgação MTST
Liderado pelo MTST, o protesto teve o intuito de recolocar a necessidade da garantia dos direitos humanos ante ao atendimento dos negócios milionários da FIFA e de empresários

23/05/2014


Por Bruno Pavan
De São Paulo (SP)

O vermelho era a cor predominante no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, na tarde de última quinta-feira (22). Liderados pelo Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), inúmeros movimentos como a Frente de Resistência Urbana, Movimento Passe Livre (MPL), Comitê Popular da Copa, entre outros, foram às ruas no protesto “Copa sem povo, tô na rua de novo ”.

Em nota, essas organizações populares e de juventude alertaram que "a Copa do Mundo nem começou e já tem seus derrotados. Para atender aos negócios milionários da FIFA e suas empresas parceiras, os governos instauraram um verdadeiro estado de exceção onde os direitos básicos da população são violados. São milhares as famílias vítimas da Copa em todo Brasil". 

De acordo com o movimento e com quem presenciou o ato pacífico, mais de 20 mil pessoas estiveram presentes. Foram quase seis quilômetros até a ponta Octávio Frias de Oliveira para protestar contra o dinheiro gasto na realização da Copa do Mundo e a especulação imobiliária na região de Itaquera. “O legado da Copa é o aumento do meu aluguel”, dizia uma das faixas.

Eram cerca de 18 horas quando a marcha começou, já com escolta da PM, que não foi esquecida nos gritos dos manifestantes. “Ei, Alckmin, pode mandar a tropa, se não tiver o povo, não vai ter Copa”. O prefeito Fernando Haddad também não foi poupado: “Ei, Haddad, paramos a cidade”.

Ao longo da avenida Faria Lima, inúmeros olhares curiosos se lançavam à massa. Muitos comércios abaixaram as portas esperando que a marcha passar. Um princípio de confusão entre um sem teto e um segurança se deu em frente ao Shopping Iguatemi, mas foi logo abafada por outros manifestantes.

Já no final da marcha, os Sem teto tomaram a Ponte Estaiada e, aos gritos de “a Estaiada é nossa”, o líder Guilherme Boulos prometeu que o mês da Copa será um “junho vermelho”.

Copa do sem povo estou nas ruas de novo!

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Como nascem os preconceitos

 

ESCRITO POR FREI BETTO      
SEXTA, 23 DE MAIO DE 2014
 
POSTADO: CORREIO DA CIDADANIA
 
xbanqueiro.jpg.pagespeed.ic.oxB4UqDMYfGarcía Márquez, em Doze contos peregrinos, conta a história de um cachorro que, todos os domingos, era encontrado no cemitério de Barcelona, junto ao túmulo de Maria dos Prazeres, uma ex-prostituta.
 
Com certeza se inspirou nas histórias reais de Bobby, um terrier de Edimburgo, Escócia, que durante catorze anos guardou o túmulo de seu dono, enterrado em 1858. Pessoas comovidas com a sua fidelidade cuidavam de alimentá-lo. O animal foi sepultado ao lado e, hoje, há ali uma pequena escultura dele e uma lápide, na qual gravaram: “Que a sua lealdade e devoção sejam uma lição para todos nós.”
 
Em Tóquio, ergueram também uma estátua, na estação Shibuya, em homenagem a Hachiko, cão da raça Akita que todos os dias ali aguardava seu dono retonar do trabalho. O homem morreu em 1925. Durante onze anos o cachorro foi aguardá-lo na mesma hora em que ele costumava regressar. Hoje, a estação tem o nome do animal.
 
Cães e seres humanos são mamíferos e, como tal, exigem cuidados permanentes, em especial na infância, na doença e na velhice. Manter vínculos de afeto é essencial à felicidade da espécie humana. A Declaração da Independência dos EUA teve a sabedoria de incluir o direito à felicidade, considerada uma satisfação das pessoas com a própria vida.
 
Pena que atualmente muitos estadunidenses considerem a felicidade uma questão de posse, e não de dom. Daí a infelicidade geral da nação, traduzida no medo à liberdade, nas frequentes matanças, no espírito bélico, na indiferença para com a preservação ambiental e as regiões empobrecidas do mundo.
 
É o chamado “mito do macho”, segundo o qual a natureza foi feita para ser explorada; a guerra é intrínseca à espécie humana, como acreditava Churchill; e a liberdade individual está acima do bem-estar da comunidade.
 
O darwinismo social é uma ideologia cujos hipotéticos fundamentos já foram derrubados pela ciência, em especial a biologia e a antropologia. Basta ler os trabalhos do pesquisador Frans de Waal, editados no Brasil pela Companhia das Letras. Essa ideologia foi introduzida na cultura ocidental pelo filósofo inglês Herbert Spencer, que no século XIX deslocou supostas leis da natureza, indevidamente atribuídas a Darwin, para o mundo dos negócios.
 
John D. Rockfeller chegou ao ponto de atribuir à riqueza um caráter religioso ao afirmar que a acumulação de uma grande fortuna “nada mais é que o resultado de uma lei da natureza e de uma lei de Deus.”
 
Na natureza há mais cooperação que competição, afirmam hoje os cientistas. O conceito de seleção natural de Darwin deriva de sua leitura de Thomas Malthus, que em 1798 publicou um ensaio sobre o crescimento populacional. Malthus afirmava que a população que crescer à velocidade maior que o seu estoque de alimentos seria inevitavelmente reduzida pela fome.
 
Spencer agarrou essa ideia para concluir que, na sociedade, os mais aptos progridem à custa dos menos aptos e, portanto, a competição é positiva e natural. E os que são cegos às verdadeiras causas da desigualdade social alegam que a miséria decorre do excesso de pessoas neste planeta, e que medidas rigorosas de limitação da natalidade devem ser aplicadas.
 
Nem Malthus nem Spencer se colocaram uma questão muito simples que, em dados atuais, merece resposta: se somos 7 bilhões de seres humanos e, segundo a FAO, produzimos alimentos para 12 bilhões de bocas, como justificar a desnutrição de 1,3 bilhão de pessoas? A resposta é óbvia: não há excesso de bocas, há falta de justiça.
 
Quanto mais são derrubadas barreiras entre classes, hierarquias, pessoas de cor de pele diferente, mais os privilegiados e seus ideólogos se empenham em busca de possíveis justificativas para provar que, entre humanos, uns são naturalmente mais aptos que outros.
 
Outrora os nobres eram considerados uma espécie diferente, dotada de “sangue azul”. Como quase não tomavam sol e tinham a pele muito branca, as veias das mãos e dos braços davam essa impressão.
 
Com a Revolução Industrial, gente comum se tornou rica, superando em fortuna a nobreza. Foi preciso então uma nova ideologia para tranquilizar aqueles que galgam o pico da opulência sem olhar para trás. “Que o Estado e a Igreja cuidem dos pobres”, insistiam eles. E tão logo o Estado e a Igreja passaram a dar atenção aos pobres (e é bom frisar, sem deixar de cuidar dos ricos, que o digam o BNDES e a Cúria Romana), como no caso do Estado de bem-estar social, do socialismo e da Teologia da Libertação, os privilegiados puseram a boca no trombone, demonizando as políticas sociais, acusadas de gastos excessivos, e a “opção pelos pobres” da Igreja. Preconceitos e discriminações não nascem na natureza. Brotam em nossas cabeças e contaminam as nossas almas.
 
Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. Página e Twitter do autor: http://www.freibetto.org/ -  twitter:@freibetto.