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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Aláfia, para além da “África teórica”

ALFIA-~1

Renan Perobelli

Uma banda que carrega em sua música influências e referências políticas, sociais e religiosas, fazendo um enfrentamento ao racismo e trazendo um continente ancestral ao palco

29/01/2014

Por Igor Carvalho,

Da Revista Fórum

Eles poderiam ser personagens centrais da profecia do poeta Walner Danziger, no ótimo e importante poema “Eles não usam black power”, que usa de ironia ao apresentar a figura estigmatizada do negro como “macaco” para narrar a tomada de poder pelo povo de Zumbi. Quando pisam no palco e principiam a bater uma palma da mão na outra, ritmando o início de sua revolução particular, a banda Aláfia “borra de sangue a toalha de linho em desalinho”, como escreveu Danziger. No palco, o grupo está acompanhado pelos seus ancestrais, que ajudam a formar o ideal “alafiano”, sempre se esquivando do que chamam de “África teórica”, ou o folclore que torna a cultura africana um produto exótico, a ser consumido. “É uma apropriação sem modismo”, explica Alysson Bruno, um dos integrantes da trupe.

Em cada apresentação, também estão presentes os Douglas e Amarildos, as vítimas dos “tiros acidentais” e do “genocídio da população negra no Brasil”. “Essas últimas notícias de 30 mil negros assassinados, esses levantamentos, isso é igual ao Carandiru, 111 mortos. Foi muito mais. Mas, muito maior que o número é o medo, o terror, o temor que a gente tem da polícia. Isso tá no nosso dia a dia”, afirma Eduardo Brechó, que compõe o trio de vocais do Aláfia com a “libélula de Ébano” Xênia França e o teatral Jairo Pereira. Ao todo, são dez músicos: Pipo Pegoraro (guitarra), Alysson Bruno (percussão), Gil Duarte (trombone), Gabriel Catanzaro (baixo), Henrique Gomide (piano), Lucas Cirillo (gaita) e Filipe Vedolim (bateria), além dos vocalistas.

A banda existe há três anos, porém, o primeiro disco, Aláfia(YB Music) veio recentemente. O lançamento foi no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 10 de setembro de 2013. Os ingressos se esgotaram e muita gente ficou do lado de fora, sem conseguir ver a apresentação. O sucesso se ampara no trabalho realizado pelo grupo, que antes de lançar o disco já havia se apresentado em diversos lugares, conquistando ouvintes que aguardavam o resultado daquela “conspiração”.

No estatuto do grupo, desde o princípio, ficaram claros os pilares ideológicos que norteariam sua atuação, como a preocupação com os elementos africanos. “A gente gosta de algo do tipo: ‘Tá vendo esse congo de ouro que tá nesse pancadão’. Mas o congo de ouro não apareceu no Google, ele vem da nossa vivência. A luta racial carece da afirmação racial, mas para longe dessa África teórica, sem esse olhar idealizado”, afirma Brechó. E o zelo com questões sociais passa diretamente pela discussão a respeito da violência policial, como explica um dos vocalistas e fundadores da banda, Brechó. “A gente é a favor da desmilitarização, mas não é só falar que a gente é a favor disso. A gente é contra a Polícia Militar, certo? Assim como eles são contra a gente, naturalmente. Quando eu era adolescente, jovem, a polícia era contra a gente sem eu nem saber qual era a situação.”

A religião, assim como o preconceito, também são temáticas constantes da obra do Aláfia. “Nosso combate não é à intolerância religiosa, é ao racismo. Porque o que demoniza a nossa religião é o racismo. É diferente se houver um sacrifício, como Jesus foi sacrificado, feito pela ‘religião branca’, um modo meio escroto de falar, mas que remete aos termos de poder que mantêm essa religião no Brasil”, sentencia Jairo Pereira.

A fusão dos elementos históricos, religiosos, políticos e sociais com a musicalidade que respeita a tradição da música negra, unindo os batuques dos tambores do candomblé, o jazz, o funk, o hip-hop e o soul criou uma estética musical que ainda fará muito crítico e articulista se perder. A direção do show é de Estrela D’Alva, e quem sempre aparece nos espetáculos são os poetas Akins Kinte e Lews Barbosa, que, ao lado de Lurdez da Luz, participam do disco.

Jairo Pereira assina a erotizada “Chicabum”. As outras nove músicas do disco são de autoria de Eduardo Brechó, sozinho ou com a participação de outros, entre elas, “Mulher da costa”, que abre o CD. Na música, a mulher da costa, que “vem do Gana, não se engana” e “diverge de [Pierre] Verger” (etnólogo francês que estudou a África em diversos aspectos), pergunta: “Quem pratica a África?”. O Aláfia usa a canção também para questionar a aplicação da Lei no 10.639 no Brasil, que trata do ensino da cultura africana nas escolas. Confira a entrevista abaixo.

Fórum – De onde vocês são?

Eduardo Brechó – Aqui tem migrante pra caramba. Sou de Ribeirão Preto, o Jairo é de Suzano, a Xênia é baiana, o Pipo é do Rio Pequeno [bairro da zona oeste de São Paulo], o Gil é cearense, o Cirillo é da zona sul, Gabiru é da Lapa [zona oeste paulistana] e o Fernando é de São Miguel [zona leste de São Paulo], o Alysson também é da zona sul. Tudo migrante, ninguém é do centro.

Fórum – E essa conexão com a periferia e os movimentos culturais e sociais de São Paulo, vem de onde?

Eduardo Brechó – Acho que tem a ver com a formação. Não somos exatamente de uma quebrada específica, mas estamos ligados na cultura das quebradas, que colabora para a construção da identidade desse indivíduo que é o Aláfia.

Fórum – O que significa Aláfia?

Eduardo Brechó – Significa caminhos abertos.

Alysson Bruno – A gente pode dizer, usando o nome de uma outra música nossa, que é quando o destino está em punga a favor do desejo. Isso é Aláfia, uma palavra de confirmação, significa “vai dar certo”. Plenitude.

Fórum – A banda tem três anos, e o disco foi lançado há dois meses. Muita gente já se perdeu ou está se perdendo tentando identificar o que é o som do Aláfia?

–  Sim! [Coro]
Eduardo Brechó – Identificar todo mundo identifica, mas não classificam. Identificação é a coisa mais fácil no som do Aláfia, porque temos referências inúmeras. Então, as pessoas identificam coisas diferentes ali, é um triunfo pra gente.

Fórum – Mas vocês tentam classificar?

Pipo Pegoraro – Acho que não. Não precisa, né? A gente não tenta classificar porque isso acaba reduzindo. As pessoas perguntam qual é o gênero, mas você tenta se explicar e dar uma definição, e depois ficamos pensando: “não tem nada a ver o que eu falei”. Ou então faltou isso ou aquilo.

Jairo Pereira – A definição mais legal é de uma reportagem numa rádio inglesa e o cara falou “funk candomblé”. No fim das contas, tem reggae, afrobeat, funk, soul. Tem tudo, tem regional…

Fórum – E novas tecnologias ajudaram também a difundir o nome da Aláfia nas redes.

Eduardo Brechó – Sim. O primeiro show do Aláfia no “Bar B” [10 de novembro de 2011] se deu por isso. A gente nem existia. Não existia um show, não éramos uma banda que se apresentava. A gente divulgou pra caramba esse show nas redes sociais. Sabiam que a gente estava conspirando e que queríamos algo. Divulgamos em um mês, e o show foi cheio. A partir daquilo, a gente continua trampando nas redes, funcionou. Aquele show virou uma temporada, e nessa temporada veio o ímpeto de gravar um disco. No mesmo ano em que a gente se uniu, já partimos para gravar o disco.

Fórum – E vocês já tinham as canções?

Eduardo Brechó – Já. Quer dizer, mais ou menos. A gente trampava em algumas dessas reuniões que fazíamos no início, às quartas-feiras, e aí fomos fazendo outras e formando o repertório do Aláfia. Já tinha um apanhado de canções, fomos nos entendendo como banda, né? O caminho fez a gente também. Naquele momento, fomos fazendo música para interpretar nossa sonoridade. Muitas canções que a gente acreditava na época não entraram para o repertório porque a sonoridade da banda passou a ser outra, e começamos a pensar nas músicas a partir dessa sonoridade, e não ao contrário. A música tem que servir para o que é o Aláfia ou para o que o Aláfia está atingindo. Foi assim que a gente montou o repertório.

Fórum – Vocês já estão identificando o público?

Eduardo Brechó – Estava conversando isso com o Pipo ontem. Você ouviu na casa do Sérgio Vaz e isso é emblemático. Existe um movimento de consumo na quebrada hoje que está buscando novos ares também, entendeu? Além disso, a gente consegue dialogar legal com essa galera que está olhando para a ancestralidade e para as lutas raciais, porque olhamos para isso também. Isso está no estatuto do Aláfia desde que foi fundado. Mas qual medida isso ia tomar, com quem a gente ia se comunicar, nós não sabíamos exatamente.

O Aláfia se vale muito disso, e a gente retribui à nossa medida. Está formando um circuito de cooperação. Se você pegar, por exemplo, o som do Ba Kimbuta tem a ver com a gente também. E não é uma coisa que a gente trampou junto, mas o laboratório é a rua, e as ideias estão ali. Há várias expressões de periferia, e se você frequenta sarau, vê a molecada de 17 ou 16 anos fazendo rap do jeito deles, vê o jeito que soltam o refrão e falam coisas diferentes, se colocar um tambor, isso influencia. É uma expressão do nosso tempo também, tem a ver com a contemporaneidade.

Xênia França – Mas isso desde sempre também. Desde o primeiro show no “Bar B”, as temporadas são sempre cheias, e com esse público que ele tá falando, né? A galera que se identifica com essas questões raciais. Ontem fizemos um show que foi o maior até agora, lá no Anhangabaú, e as pessoas estavam lá, saíram de casa para nos ver. Tinha gente que nunca tinha ouvido falar da gente, mas tinha uma galera que só foi lá ver a gente. Tinha gente cantando nossas músicas.

Fórum – Vocês falaram da ancestralidade, mas mesmo com essa condição de não se classificar, uma coisa é certa: o elemento negro e africano está ali no palco. O quanto há de influência da música negra no som que o Aláfia faz?

Eduardo Brechó – Cara, em termos de influência, pessoalmente acho que cada um traz a sua. A África é só teórica, está aí na sua camiseta. Então, cada um vai trazer a sua África, porque a gente não acredita nela nesse sentido. Tipo, o que é a África pra você? O que é o idealismo em relação a isso? Um folclore, né? Tem um folclore envolvido, e a gente sabe que a galera está mais envolvida com ele. E o mundo é muito grande. Seis mil anos que a gente cita não é nada. Como diria o Rei do Camarote, é de 6 mil anos ao infinito [risos]. Pensamos profundamente, metafisicamente e sem medo essas questões raciais. Datamos a nossa ancestralidade à medida que ela aparece, não força a barra.

Xênia França – É da maneira que se vivencia.

Eduardo Brechó – É isso. A gente gosta de algo do tipo: “Tá vendo esse congo de ouro que tá nesse pancadão”. Mas o congo de ouro não apareceu no Google, ele vem da nossa vivência. A luta racial carece da afirmação racial, mas para longe dessa África teórica, sem esse olhar idealizado. Muitos irmãos nossos, quando chegam na África, se surpreendem, são tratados até como brancos lá, por carregar essa África teórica. Tomamos muito cuidado com esse folclore. É luta, não é africanismo superficial.

Alysson Bruno – É uma apropriação sem modismo. Cada elemento aqui tem um fundamento, um motivo para estar na nossa música. Em cada frase, em cada rítmica, há uma coerência, não é só ser pretinho com cabelo para cima.

Fórum – No show que eu vi no Rio Verde, o Jairo Pereira falou muito sobre a Lei no 10.639, antes da música “Mulher da costa”. A música em algum momento foi pensada para a questão da lei? E qual a importância dessa lei, que não é aplicada corretamente no Brasil?

Eduardo Brechó – Compus a música quando trabalhava de educador no Museu Afro Brasil. É o seguinte, desde que a lei foi criada há 10 anos, a gente trabalha para que seja colocada em questão. Quando a luta começou, pela aplicação da lei, estávamos envolvidos. Fomos nos entendendo e sabemos que somos a favor da aplicação da lei. A gente trata de negritude na oficina que dou aqui [CEU Paz] e tenta aplicar a lei. Quem colocou isso de Lei 10.639 no meio da letra foi o Jairo.

Jairo Pereira – Fui eu, porque foi exatamente isso, quem pratica a África. A importância que tem é sobre a compreensão da nossa base para que a gente possa ascender em relação a nossa identidade, a nossa própria busca. É uma ideologia básica que tenho: é necessário mastigar informação, principalmente para as pessoas que não se alimentaram dela. E que essa informação, que foi demonizada, possa ser transformada e mostrar para as pessoas que o demonizador está errado. Isso é um trabalho de base. A Lei no 10.639 zela por isso. Mas, infelizmente, quando dão uma aula de jongo, na escola escutamos que “isso é coisa do diabo e a gente não pode ensinar isso”. Temos a nossa cultura totalmente transformada em algo maléfico há anos, e a nossa luta é dizer carinhosamente para essas pessoas: ‘Ei, presta atenção, isso te trouxe até aqui’. E temos um sistema que exige pra caralho, entendeu?

Nosso combate não é à intolerância religiosa, é ao racismo. Porque o que demoniza a nossa religião é o racismo. É diferente se houver um sacrifício, como Jesus foi sacrificado, feito pela “religião branca”, um modo meio escroto de falar, mas que remete aos termos de poder que mantêm essa religião no Brasil. Tem um exemplo de Diadema, quando fiz um trampo musicando poemas afro-brasileiros, nós montamos um livro no EJA [Educação de Jovens e Adultos] para passar esses poemas para a alfabetização. Alfabetização de gente de 50 anos, que queria estar vendo a Carminha [personagem da novela “Avenida Brasil”] em casa. Chegava lá e falava “Os tambores da noite estão te chamando”, do Max Viana, aí a pessoa falava que não podia falar a palavra “tambores” porque é do diabo. E todo mundo já comprava a ideia. Em uma sala de 30 alunos, 20 saíam quando ouviam a palavra “tambor”. Então, se a gente deixar isso desse jeito, vai ter que nascer um novo dicionário. O barato não é laico, não existe, o Brasil é religioso e o racismo está inserido nesse tipo de detalhe. Isso atrapalha a alfabetização. As características são totalmente negadas a todo tempo. Por exemplo, você vê uma mulher preta de turbante na cabeça e as pessoas ainda olham de maneira estranha e reprovam com o olhar. Ou quando não transformam isso em uma coisa exótica.

Fórum – Assim como aconteceu com Mano Brown, Emicida, e tantos outros que se propuseram a discutir a sociedade em que vivemos, vocês estão preparados para debater além da música?

Eduardo Brechó – Isso vai acontecer, sabemos. Mas não existe esse negócio de “música”. O nosso fundamento não serve para a estética política, se você não consegue definir a nossa estética, isso já vai te provocar. Isso carrega nossa postura política naturalmente. Não é um barato que é pensado, que a gente vai chegar ao lugar X e atingir não sei quem. Como acontece com Pedro Paulo [Mano Brown], são questionamentos que acontecem da gente pra gente. Não é o poder que vai vir. Isso seria um ponto muito positivo.

Jairo Pereira – Uma parada que costumo falar é a “arte de embate”. Já está inserida na arte a consciência política. Essa conexão que você tem com o mundo e com as pessoas. Essa arte de maneira transformadora já traz isso, já está na essência. Qualquer coisa que vier falar, a gente vai dar nosso posicionamento e o nosso ponto de vista em relação a isso. Não tenho a preocupação de quem eu possa incomodar. Se posso incomodar a polícia, se posso incomodar o Danilo Gentili, ou quem for. Porque quem estiver jogando contra, não está jogando a favor.

Fórum – Quero falar com vocês sobre a violência policial. Qual a postura de vocês em relação a esses tiros “acidentais”?

Jairo Pereira – Fiz uma performance na Oscar Freire que se chamava “Os Mendonças”, junto com a artista Juliana Notari, e a intenção era fazer essa denúncia do genocídio da população negra. Não adianta falar que são só os jovens. Os jovens também, mas é a população negra. Quando você fala dos jovens, você só especifica.

Fui pra lá exatamente pra fazer esses mascarados representando esse poder de opressão que já vem da família dos bandeirantes. Os Mendonças são essas famílias dos bandeirantes que ainda representam o poder. E que também é a família de André Furtado de Mendonça, que é o cara que degolou Zumbi. Foi pra dizer que isso ainda continua, a gente ainda tem os Mendonças degolando a gente. Fui pra Oscar Freire, na rua mais luxuosa do mundo. Era uma performance artística e estava na cara que era uma performance artística, pessoas com câmera filmando. Estava revendo e tem um take em que passo de olhos vendados ao lado de uma mulher, e o que a mulher faz? Ela gruda na bolsa. Fui levar o lixo pra eles, porque é o lixo que eles fazem e jogam na periferia, só jogam nos cantos. A gente foi jogar na porta deles. Sabe o que aconteceu? Eles não tinham coragem de olhar. Isso está no vídeo. As pessoas nem olhavam para os lados. E, no período que a gente esteve lá, a polícia passava toda hora e não olhava na minha cara. Isso está acontecendo, e todo mundo sabe que está acontecendo, mas são essas pessoas formadoras de opinião, que mantêm o poder, que não querem dar a cara pra isso. Essa força tem que se constituir no nosso povo, a gente tem que emergir disso. Porque isso está matando a gente.

Xênia França – Há muito tempo.

Eduardo Brechó – E não é só superficialmente falando, não. A gente é a favor da desmilitarização, mas não é só falar que é a favor disso. A gente é contra a Polícia Militar, certo? Assim como eles são contra a gente, naturalmente. E não é porque a gente começou com o Aláfia. Quando eu era adolescente, jovem, a polícia era contra a gente sem eu nem saber qual era a situação. No dia da estreia do Aláfia no Sesc Pompeia, tomei um enquadro, fui esculachado. Então, isso é latente, está acontecendo. Acontece no nosso dia a dia, e a gente não gosta. Simplesmente assim.

Não dá pra você ser feminista e casar com um machista. Não dá pra você ser negro e casar com um racista sendo consciente dessa situação. É o que acontece. Não vamos nos casar com um sistema que nos rebaixa e nos oprime. Somos conscientes disso e sabemos que a gente tem que espalhar essa informação. Essas últimas notícias de 30 mil negros assassinados, esses levantamentos, isso é igual ao Carandiru, 111 mortos. Foi muito mais. Mas muito maior que o número é o medo, o terror, o temor que a gente tem da polícia. Isso tá no nosso dia a dia.

Jairo Pereira – É exatamente por isso que precisamos da Lei no 10.639, pois ela nos deixará contar a nossa própria história, e não deixa só quem faz esses levantamentos de 30 mil contar.

Fórum – Vocês colocaram o funk no show. Queria saber de que forma vocês veem o preconceito com o funk e o melody no Pará, e tantos outros que surgem na periferia do Brasil.

Eduardo Brechó – A gente usa aguerê e congo de ouro, entendeu? Usa um monte de coisa que são ritmos que conhecemos, isso vem lá de trás, não inventamos nada, é ancestral. O funk também é essa união de elementos. Você vai no pancadão e dança música instrumental. Quanto tempo que eu não via gente dançar música instrumental no baile? O cara fica lá “tum tchatcha” [ritmo de funk] e os moleques ficam dançando, não precisa estar falando alguma coisa. Muitos dizem que a música instrumental no Brasil não faz sucesso, mas é porque não frequentam pancadão. Então, a música comunica dessa maneira ancestral. Qual era a pergunta? [risos].

Fórum – Preconceito com músicas das periferias do Brasil.

Eduardo Brechó – No lançamento da campanha “Eu pareço suspeito?”, tinha um workshop falando sobre isso. Eu e o Akins [Kintê] levamos pra Fundação Casa falando da perseguição do gênero do samba, e falando para os moleques que eram envolvidos com o funk como quem estava sendo perseguido não era o gênero, era o pessoal, é o povo, é o negro. Porque o roqueiro branco falava de suruba e usar droga e continua na garagem fazendo rock.

Alysson Bruno – Vira rei.

Eduardo Brechó – O que está sendo perseguido é o povo, e isso não é de hoje. Isso é do samba, foi com o rap, é com o forró também. Porque esse negócio de etiquetar como “brega”…

Fórum – Vou perguntar sobre uma música específica, sei que teve participação de mais gente. A música “Ela é favela”. Podemos falar dela?

Eduardo Brechó – “Ela é favela” é o seguinte: Fiz o refrão no final de um relacionamento. A outra pessoa com quem eu estava não era favela, e o fato de a nova moça ser fez toda a diferença. Música de amor, né? Na época, fiz o refrão e a primeira parte, e chamei a Lurdez [da Luz] para fazer a segunda parte.

Xênia França – Ela ficava girando, não tinha forma. E, um dia, a gente estava junto, na casa da Vila Madalena onde começamos o processo, de noite já. Aí rolou o refrão, e lá da cozinha, no café, fiz o “larárárárá” e rolou.

Eduardo Brechó – Aí a Xênia fez a parte final dessa melodia, que é a parte que ela canta. Isso é importante porque funda o Aláfia. Foi a primeira música que a gente gravou, a primeira música que lançou. Mudamos essa primeira música algumas vezes.

Fórum – Eu lia a letra de “Ela é favela” e jurava que você estava falando da favela. Vi a pipa subindo na favela.

Gabriel Catanzaro – Eu também achava na primeira vez que ouvi [risos].

Eduardo Brechó – Na verdade, coloco a vida, a vivência de favela, nessa parte da letra, detalhes que são importantes e que significam muito na luta feminina. Essa questão das mulheres pretas e faveladas, de quebrada. Como diz o Thaíde em “Brava gente”, “e quando eu digo favela não é só pros favelados”. O barato é o seguinte, falar dos detalhes pra quem não é favela também se identificar, e para as mulheres. Quando falei pra Lurdez, disse que não precisava fazer uma dedicação, falei “você vai falar de uma mulher guerreira”. E pronto. Porque não falo “eu te amo”, não é isso. Estou fazendo uma ode à pessoa e a esse espírito favela, que hoje é um adjetivo. É igual rua. “Eu sou rua”, isso é um adjetivo. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 bilhões de pobres no mundo

Luiz Flávio Gomes

Postado: Carta Maior - Créditos da foto: Lucas Braga

FF241176855A9424BB0AFFD915445CD5CA4C38C80578789283191E1B406B1BF7Essa é a conclusão do relatório Governar para as Elites, Sequestro democrático e desigualdade econômica, que a ONG Oxfam Intermón publicou em 19/01/14. A desequilibrada concentração de renda nas mãos de poucos (típica do capitalismo retrógrado, exageradamente desigual) significa menos renda per capita para cada habitante e cada família do país. Mas isso não implica automaticamente mais violência (mais homicídios). Outros fatores devem ser considerados: escolaridade (sobretudo), emprego estável ou não, perspectiva de futuro, a racionalidade ou irracionalidade da política criminal adotada, religião, tradição, existência ou não do “tabu do sangue” (ninguém pode sangrar outra pessoa) etc.

O que sabemos? Que cruzando os dados objetivos do IDH (índice de desenvolvimento humano), Coeficiente Gini (distribuição da renda familiar), renda per capita e o número de homicídios temos uma tese: quanto mais elevado o IDH e menor o Gini menos desigualdade e menos violento é o país (e vice-versa: quanto mais baixo o IDH e mais alto o Gini, mais desigualdade e mais violência existe). Como regra geral essa premissa é bastante válida. As exceções confirmam a regra.

O que essa tese aconselha ao bom governo assim como às lúcidas classes burguesas dominantes? Que o incremento (a melhora substancial) dos fatores estruturadores do IDH (escolaridade, longevidade e renda per capita) e do Gini (distribuição da renda familiar) não pode ser desconsiderado como fator preventivo da violência. É de se chamar a atenção aqui, especialmente, para a educação. No lapso temporal de uma geração a Coréia do Sul se revolucionou completamente por meio da educação massiva de qualidade. Esse é o fator preventivo mais relevante de todos. Como já dizia Beccaria, em 1764: “Finalmente, o mais seguro, porém o mais difícil meio de evitar os delitos, é aperfeiçoar a educação” (Capítulo 45, do livro Dos delitos e das penas).

Os dez países de mais alto IDH do mundo são os menos violentos (1,8 homicídios para cada 100 mil) e ainda estão dentre os menos desiguais, com exceção dos EUA. Contam, ademais, com rendimento per capita muito alto e um excelente nível de alfabetização. O mais desigual neste grupo (EUA) é precisamente um dos mais violentos (conta com quase o triplo de homicídios da média dos 47 países de maior IDH, que é de 1,8 para cada 100 mil pessoas). Isso nos conduz a concluir que não devemos nunca considerar um único fator (IDH) para medir ou prognosticar a violência.

Regional Vinhedo do Unificados comemora 50 anos de vida

Veja fotos da festa e assista vídeo com a
história de meio século de lutas, de 1964 a hoje

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Trabalhadores e trabalhadoras sindicalizadas comemoraram no domingo (26/jan/14) os 50 anos de fundação e de lutas da Regional Vinhedo do Sindicato Químicos Unificados. Cerca de 1.200 pessoas participaram da festa que contou com um almoço, show musical dançante, recreação para crianças, homenagem a aposentados que ajudaram a organizar o sindicato e exibição de um vídeo que recuperou a trajetória de lutas da Regional Vinhedo.

Edinho, dirigente da Regional Vinhedo, em sua fala no evento, destacou a importância de cada trabalhador (a) na construção do sindicato ao longo desses 50 anos. Em seguida, convidou todos os dirigentes da Regional para encerrar as homenagens e acompanhar o vídeo que conta a história dos 50 anos de luta.

Assista o vídeo

TV MOVIMENTO

  SIGA ESTE LINK – ou na imagem acima – para assistir o vídeo. Ele foi produzido pela TVMOV (TV Movimento – http://tvmovimento.tv.br/)

Presenças

A solenidade contou com as falas de companheiros que têm acompanhado e apoiado as lutas do sindicato, como Rodrigo Paixão (Psol), vereador de Vinhedo; Paulo Bufalo (Psol), vereador de Campinas e o deputado federal Ivan Valente (Psol-SP).

O companheiro Índio, bancário de São Paulo e representante da Intersindical, destacou a importância do sindicato não apenas nas lutas da categoria em Vinhedo e em cada uma das regionais, mas especialmente na organização dos trabalhadores em todo o Brasil por meio da Intersindical, considerando o Unificados uma referência pelas conquistas alcançadas ao longo dos anos.

Arlei Medeiros e Givanildo Oliveira, dirigentes do Unificados, saudaram os 50 anos da Regional Vinhedo em nome das regionais Campinas e Osasco, respectivamente.

Fotos da festa

 

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SIGA ESTE LINK – ou na imagem acima – para ver fotos da festa.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O MITO DO FUSCA: Uso da desinformação pela grande imprensa

O MITO DO FUSCA: Uso da desinformação pela grande imprensa
Um senhor amedrontado, que dirigia um fusca onde estava sua família, tentou atravessar o fogo de uma barricada mas um colchão ficou preso embaixo de seu carro, sem notar o ocorrido e visivelmente atordoado, ele não desceu do carro para ver o que acontecia, ao perceber que o motorista não respondia aos alertas de que deveria sair do carro, fotógrafos e manifestantes retiram sua família salvando todos do fogo, na proximada da Praça Roosevelt, em São Paulo.
A sequência de fotos é explicativa. As manchetes dos grandes jornais e TVs anunciam, desde ontem, que o carro em chamas foi fruto de um "ataque" e "incendiado por manifestantes", o que é uma farsa, já que ninguém ateou fogo no veículo.
Via Molotov FOTO Independente

O MITO DO FUSCA

sábado, 25 de janeiro de 2014

“Rombo da previdência”: governo favorece o capital punindo os trabalhadores

Escrito por Waldemar Rossi – Postado: Correio da Cidadania

Sábado, 25 de Janeiro de 2014

x250114_previdencia_jpg_pagespeed_ic_Xm7zdqq8UpAlguns leitores do Correio da Cidadania têm reclamado de um suposto pessimismo e má vontade em relação aos governos petistas. Tenho sido acusado, em meus artigos, de nunca reconhecer os avanços obtidos nos últimos 11 anos de governo. Entretanto, é de se crer, deveríamos analisar todos os governos pela ótica da justiça social, e não dos “favores” que a parcela faminta de nosso país espera dos políticos de plantão, em troca da venda dos seus votos. O que se deveria esperar de políticos que foram eleitos pelo povo – que neles votaram na esperança das reformas de estrutura – era o cumprimento desses compromissos assumidos com toda a população durante as campanhas eleitorais, pondo em prática tais reformas, sempre prometidas, mas nunca cumpridas. Ou, pior, quando postas em prática estão sempre a favor do capital, portanto, em prejuízo do povo.

No ano de 2004, Lula se propôs a alterar, mais uma vez (FHC já havia prejudicado os trabalhadores), as normas que vigoravam na Previdência Social, em detrimento dos que dela dependem. Falava-se, como se fala ainda hoje, que a Previdência estava deficitária, sem dizer que o déficit é provocado pela criminosa sonegação praticada pelas grandes e médias empresas, sobretudo. Naquela época, Guido Mantega (hoje Ministro do Planejamento) justificava a medida dizendo que “o aposentado já não precisa de dinheiro, porque não paga condução...”, entre outras besteiras. Ou seja, tudo o que um trabalhador economizou compulsoriamente durante anos, pode agora ser-lhe roubado. Não importa se ele terá que viver na pobreza ou na miséria o que resta dos seus anos de vida. O que importa é usar o seu dinheiro para cobrir o rombo causado pela sonegação do capital. Com tal fala, tenta jogar sobre as costas dos trabalhadores a culpa e o ônus dos podres frutos da sonegação dos poderosos.

E o problema voltou à tona, nesses primeiros dias de 2014, sob o pretexto de que o “Rombo da Previdência em 2013” foi de R$ 50 bilhões. Duas observações importantes, que as percebe quem acompanha o noticiário econômico:

1 – o déficit é resultado direto dos “incentivos” fiscais feitos às montadoras, principalmente, mas a outros setores industriais também. Além da eliminação do IPI, determinou-se a mudança na contribuição previdenciária para aliviar a folha de pagamento, o que resultou em sonegação oficializada da contribuição previdenciária.

2 – E o que propõe o governo Dilma? “Rombo da Previdência cresce e governo quer apertar regras para benefícios” (*); “A Previdência busca meios para apertar as regras de concessão de auxílios-doença e invalidez” (*).

Ou seja, para atender a cobiça de maiores lucros pelas empresas e para atender às suas obrigações com os estados e municípios – estancados durante 10 anos com o dinheiro desviado para fins escusos – o governo petista, mais uma vez, quer punir quem sempre trabalhou produzindo as riquezas desse mesmo capital, por ele favorecido.

Enquanto maquina no calado das férias gerais – que param o país – e articula os meios para ferrar seu povo, o governo atende de bom grado às exigências estapafúrdias da gangue que domina a FIFA, gangue que planeja eventos mundiais para impulsionar e favorecer economicamente um sistema em vias de falência histórica. E os grandes favorecidos são a indústria da construção civil (grandes empreiteiras), as indústrias do aço, do cimento, do mobiliário, das máquinas, dos meios de transporte, além de forçar avanço das privatizações de setores estratégicos, como postos, aeroportos, ferrovias e estradas de rodagem. No bojo desses favorecimentos, entram a hotelaria e o turismo, a prostituição e a exploração sexual de crianças.

Nesse curto tempo de Copa do Mundo, alguns empregos são criados e isto será, e é, usado como publicidade de uma política eficiente. O que restará desse circo do futebol mundial? Elefantes brancos jogados às traças, desemprego em vários setores desacelerados depois da Copa e, sem dúvidas, um rastro de miséria humana.

Ao não analisar sob a ótica das reais necessidades do povo e do potencial de desenvolvimento do país, estamos legitimando mais uma farsa que compromete o futuro de inúmeras gerações e colabora para jogar, ainda mais, nosso país nas garras das “aves de rapina” que controlam e exploram a economia mundial.

Não temos o direito de permanecer cegos e calados diante dos crimes que são praticados a cada dia no Brasil. No próximo artigo, procurarei tratar de outros temas atuais e que, espero, ajudarão a melhor compreender nossa dura realidade politico-econômico-social.

(*) Estadão, 21 de janeiro de 2014 – Economia & Negócios – B1.

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.