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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Brasil de 200 bilhões de barris

Escrito por Paulo Metri

Correio da Cidadania

250215_petroleo

O setor do petróleo fornece um farto material para a constatação da ganância humana. Com a pretensão de trazer alguma explicação para o que acontece nestes dias com o Brasil, sem existir preocupação alguma da mídia para explicar, defendo a tese de que ocorreu uma rápida ascensão do nosso país no ranking daqueles atrativos para o capital internacional. Até 2006, era um país com abundância de recursos naturais, território e um razoável mercado consumidor. Mas ele não possuía petróleo em quantidade suficiente para se tornar grande exportador. Era fornecedor de minérios e grãos não tão valiosos no mercado internacional quanto o petróleo. Implícito está que o preço do barril irá subir brevemente para algum valor, pelo menos, em torno de US$80.

A partir dos anos 90, o Brasil perdeu graus de soberania e passou a ser um exemplar subalterno do capital internacional. Por exemplo, tem uma lei complacente de remessa de lucros, permite livre trânsito de capitais, não protege a empresa nacional genuína, tem uma política de superávit primário e câmbio que tranquiliza os rentistas, permite a desnacionalização do parque industrial, oferece a subsidiárias estrangeiras benefícios fiscais e creditícios, tem uma mídia hegemônica pertencente a este capital, que aliena a sociedade, e possui uma defesa militar incipiente. Assim, pode-se dizer que, após 1990, a sociedade brasileira passou a ter uma maior sangria de suas riquezas e seus esforços para o exterior. Este era o Brasil subalterno, que só tinha 14 bilhões de barris de petróleo, suficientes somente para 17 anos do seu consumo.

Em 2006, descobre-se o Pré-Sal, que pode conter de 100 a 300 bilhões de barris de petróleo, dos quais 60 bilhões já foram descobertos – e em menos de dez anos. Ao mesmo tempo, começou-se a recuperar a proteção à industria nacional, com a proibição da compra de plataformas de petróleo no exterior. Também, decidiu-se recompor as Forças Armadas, com o desenvolvimento de submarinos e caças no país, e, também, novos equipamentos de defesa para o Exército. Recentemente, decidiu-se desenvolver um avião militar de transporte de carga.

O Brasil, que já vinha participando do Mercosul, amplia sua interação soberana em outros fóruns internacionais, como a Unasul, a Celac e os Brics, contrariando interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Recentemente, um banco e um fundo monetário dos Brics foram criados. Ocorreu no período, também, a mudança da política externa do Brasil, que buscou a aproximação com os países em desenvolvimento da África, do Oriente Médio e de outras regiões, sem hostilizar os Estados Unidos, a Europa e o Japão. A presidente Dilma propôs aos países da ONU uma ação conjunta para conter a espionagem internacional, que tem participação da CIA e da NSA, do governo dos Estados Unidos.

Com a descoberta do Pré-Sal, abandona-se o modelo das concessões, que permitia a quase totalidade do lucro e todo o petróleo irem para o exterior. Adota-se o modelo do contrato de partilha para esta área, que é melhor do que a concessão. No contrato de partilha, uma parte adicional do lucro, acima do royalty, vai para o fundo social e parte do petróleo vai para o Estado brasileiro. Decidiu-se também escolher a Petrobras para ser a operadora única do Pré-Sal, o que é importante para maximizar a compra de bens e serviços no país. No leilão de Libra, foi formado um consórcio com a participação de duas petrolíferas chinesas, fugindo-se ao esquema de só participarem empresas ocidentais. No final do ano de 2014, quatro campos do Pré-Sal, que somam cerca de 14 bilhões de barris, foram entregues diretamente à Petrobras, sem leilão, o que contrariou as petrolíferas estrangeiras que desejavam vê-los leiloados.

A partir da descoberta do Pré-Sal, a Quarta Frota da Marinha dos Estados Unidos é reativada (em 2009), o presidente norte-americano Barack Obama vem ao Brasil em 2011 e seu vice-presidente se transforma em figura fácil de ser encontrada aqui. Ele se reúne diretamente com a presidente da Petrobras, o que é muito estranho. O governo norte-americano procura levar a qualquer custo a presidente Dilma para uma visita oficial aos Estados Unidos, com direito a jantar na Casa Branca, considerada uma honraria sem igual. Por esta e outras razões, FHC gostaria muito de o Pré-Sal ter sido descoberto no seu mandato, mas ele só se preocupava em preparar a Petrobras para a privatização. Surpreendentemente, meu candidato a um prêmio das Nações Unidas para grandes promotores da paz no mundo, Edward Snowden, nos informa que até os telefones da presidente Dilma foram interceptados pela inteligência estadunidense.

O tempo passa e chega o momento de nova eleição presidencial no Brasil. O capital internacional de forma geral e, especificamente, o capital do setor petrolífero, com grande influência na Casa Branca, quiseram aproveitar esta eleição para mudar algumas regras de maior soberania, estabelecidas nos últimos anos, inclusive as do Pré-Sal. Além disso, o capital internacional quer eleger um mandatário do Brasil mais subserviente. Assim, explica-se a campanha de muito ódio e enorme manipulação executada pela mídia deste capital no período eleitoral. Possivelmente, a NSA e a CIA, utilizando empresas estrangeiras aqui estabelecidas, devem tê-las incentivado a contribuir com recursos para eleger os seus candidatos em 2014, formando uma bancada no Congresso Nacional que é um misto de entreguistas com alienados corruptos, porém, muito fiéis aos doadores de campanha.

Com o acontecimento independente da descoberta dos ladrões na Petrobras, aliás, muito bem-vindo pelos estrategistas do roubo do petróleo nacional, o terceiro turno da campanha presidencial tomou corpo na mídia, assim como a tarefa de confundir a população para acreditar que a Petrobras rouba dinheiro do povo e não são os ladrões ocupantes de cargos nela que roubam.

Com uma Petrobras fraca, de preferência até privatizada, fica mais fácil levar o petróleo do Pré-Sal. Um fato importante é que, no governo FHC, existiram denúncias que a Polícia Federal e o Ministério Público pareceram ser ineptos e a mídia criminosamente benevolente com o governo. Uma destas denúncias foi a de compra de votos para a reeleição, que, mesmo com um réu confesso declarando ter recebido dinheiro para votar a favor da reeleição, nada teve de apurada; já a mídia, deu divulgação mínima e o Ministério Público não apresentou denúncia à Justiça.

Enfim, para o bem ou para o mal, tudo mudou de figura. Morreu o Brasil de só 14 bilhões de barris de petróleo. Ele terá, brevemente, uma reserva de 200 bilhões de barris, que corresponderá a uma das três maiores do mundo e irá requerer muitas medidas de soberania, se é que a sociedade brasileira deve usufruir desta riqueza. Assim, agora, na visão do capital internacional, o Brasil não chega a estar se tornando um país antagônico, como China, Rússia, Irã e Venezuela, mas está criando regras e tomando medidas hostis a este capital. Está-se no estágio da busca da cooptação dos poderes e do controle da população pela mídia do capital.

Contudo, a população não está, na sua imensa sabedoria, acreditando tanto na mídia. Se a população não der apoio para o plano do impeachment da presidente, novas tramas poderão acontecer, como uma “primavera brasileira para tirar os ladrões da Petrobras do governo”. Eventualmente, será um golpe de Estado dado pelo Congresso com o apoio da mídia. O povo precisa não dar apoio à quebra do regime democrático e não apoiar também governantes que permitam a perda do Pré-Sal.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Julgamento dos repressores da ditadura consolida democracia argentina

Reprodução

Dezenas de novos julgamentos se abrem a cada ano, chegando inclusive agora médicos, parteiras e capelães comprometidos com a repressão

Por Sérgio Ferrari,

Da Adital

Há uma década, a Argentina vive um verdadeiro tsunami em nível de julgamentos de repressores dos anos setenta e oitenta. Mais de 1.600 militares de alta graduação já foram processados por crimes de lesa humanidade cometidos durante a última ditadura — 1976 a 1983. Mais de 500 entre eles foram condenados, muitos dos quais a prisão perpétua.

Dezenas de novos julgamentos se abrem a cada ano, chegando inclusive agora médicos, parteiras e capelães comprometidos com a repressão. E os oficiais que dirigiram algumas prisões do país, como é o caso de Coronda, ao norte de Santa Fé. Em paralelo, as Avós da Praça de Maio continuam sua tenaz luta para recuperar os bebês nascidos em cativeiro de pais desaparecidos.

Um intenso ativismo em favor da memória, a verdade e a justiça, que, entretanto, pode ver-se condicionado pelas eleições presidenciais de outubro do ano em curso, afirma Alfredo Vivono, ex-subsecretário de Direitos Humanos da Província de Santa Fé, no período de 2005-2007. Com apenas 21 anos, Vivono, então militante da juventude peronista, foi detido e desaparecido (rapidamente legalizado) por sua participação na resistência antiditatorial. Desde 1984 até agora tem sido tem sido testemunha e requerente em quatro processos jurídicos — dois deles em curso — contra militares que receberam condenações de entre 10 anos e prisão perpétua. Entrevista.

Que significado têm os julgamentos contra os principais responsáveis pela ditadura argentina que se vêm dando desde 2004, ao anular-se as leis anteriores de indulto?

Alfredo Vivono - Acredito, quase com certeza, que se trata de algo único no mundo. A experiência mais conhecida têm sido os Julgamentos de Nuremberg contra os criminosos de guerra nazi. Mas se tratou de tribunais especiais com leis próprias para esses processos. A especificidade da Argentina é que estes julgamentos são realizados pelo próprio Estado que havia cometido os crimes. E fundamentalmente com tribunais e leis ordinárias. O que torna quase impossível que alguém possa tentar voltar atrás nesses processos e pretenda, no futuro, declarar a inconstitucionalidade dos mesmos.

Como promotor — e testemunha — de quatro desses julgamentos, qual é sua avaliação desses processos e as condenações resultantes?

AV - Os processos jurídicos permitiram e permitem ainda desvelar a verdade do ocorrido no país. A documentação oficial que sustentou esses processos — assim como as sentenças dos juízes — deixou claro que na Argentina não se tratou de uma guerra com dois demônios de responsabilidades similares e simétricas (o Estado e a resistência anti-ditatorial). Mas, sim, que se tratou da implementação sistemática de uma política de terrorismo de Estado para impor um modelo econômico de exclusão das maiorias.

E no terreno na vivência mais pessoal...

AV - Para as vítimas, se trata de um fato essencial de reparação. Impossível de substituir nem com anos e anos de terapias psicológicas. Poder ser escutado ante um tribunal; sustentar os relatos e acusações, muitas vezes, inclusive, em meio a lágrimas. Deixa em cada testemunha uma enorme sensação de alívio-reparação difícil de descrever. E ainda mais quando chegam as condenações dos juízes.

É importante dizer que muitos juízes não compartilham hoje, na Argentina, as posições político-ideológicas das vítimas. Mas não puderam eludir sua responsabilidade e emitiram sentenças adequadas ao direito. Isto significa um enorme triunfo da democracia.

Como explica este esforço pela verdade histórica na Argentina, que não se tem dado em outros países latino-americanos que sofreram também ditaduras e crimes de lesa humanidade?

AV - Menciono três fatores que, talvez, expliquem parcialmente a generalização desta luta pela memória, a justiça e a reparação na Argentina. Em primeiro lugar, a repressão massiva e sangrenta atingiu grande parte dos argentinos. Todos fomos afetados. Quem não havia sido vítima direta tinha algum familiar, vizinho, companheiro de trabalho sequestrado, preso ou assassinado.

Em segundo lugar, a luta heroica e inabalável das vítimas diretas, ou seja, dos organismos de Direitos Humanos, em geral, e, fundamentalmente, as Mães e Avós da Praça de Maio. Foram elas quem mantiveram a pequena chama acesa pela memória, a verdade e a justiça ainda nos momentos mais difíceis da história recente: seja quando sancionaram as leis de indulto e obediência devida — que beneficiou os militares —; ou nos anos dramáticos do neoliberalismo desenfreado quando o tema da memória tentou ser relegado. O prestígio nacional e internacional de Mães e Avós tem sido decisivo!

Outro elemento importantíssimo é o envolvimento ativo do ex-presidente Néstor Kirchner e da atual presidenta Cristina Kirchner em reivindicar os direitos humanos como essência da política de Estado.

O que significa concretamente essa avaliação? No exterior não faltam as críticas diretas contra o "Kirchnerismo”...

AV - O ex-presidente Kirchner disse, em seu primeiro discurso à Nação: "Não vou deixar minhas convicções na porta da Casa do Governo” e cumpriu. Uma de suas primeiras ações foi receber as Mães e Avós da Praça de Maio juntamente a outras organizações e vítimas. Fui testemunha, já que assisti a duas dessas reuniões. Escutou nossas reclamações — igualmente à que a atual presidenta, e ambos geraram políticas públicas favoráveis a facilitar o acesso à memória, à verdade, e à justiça reclamadas durante tantos anos. Apesar das fortes pressões contrárias de muitos fatores de poder na Argentina.

As Avós e as Mães, em sua maioria, já são idosas. Como assegurar continuidade da vigência do tema dos Direitos Humanos no futuro imediato?

AV - É impossível "herdar” o prestígio das Mães e Avós que deram fortaleza a nossas exigências. Em consequência, há de se gerar organização em torno do tema dos Direitos Humanos para poder substituí-las. Os filhos dos desaparecidos (hoje entre 30 e 40 anos de idade) estão cumprindo um rol importante de destaque.

A respeito da especificidade do terrorismo de Estado, os próximos passos consistem em avançar com os julgamentos pendentes dos responsáveis diretos pela repressão e estendê-los a ideólogos e responsáveis econômicos. Por exemplo, assegurar a continuidade do processo iniciado contra a empresa Mercedes Benz, pelo desaparecimento forçado de 14 operários e delegados dessa fábrica, e que é também impulsionado na Alemanha.

Estes julgamentos contra os que outrora foram os verdadeiros "chefes” dos militares serão mais dificultosos de promover do que dos militares mesmos. Especialmente pelos fatores de poder que dizem respeito, que hoje seguem sendo enormes.

Entra-se em um ano eleitoral na Argentina. Em que medida este processo de memória/julgamentos/castigos/reparação poderia frear-se?

AV - Há riscos. Quase toda a oposição — com expressões mais frontais ou mais encobertas — pensa encontrar a forma de pôr freio aos julgamentos. Penso que a ameaça não pesa somente sobre os direitos humanos em seu sentido mais tradicional. Mas, sim, sobre toda uma série de conquistas sociais, econômicas e culturais como a Lei de Meios de Comunicação (que controla os monopólios midiáticos); o casamento igualitário; o direito à identidade de gênero; as paritárias (livre discussão de salários e condições de trabalho); programas de educação e saúde gratuitas; subsídios às crianças pobres em idade escolar etc. que fazem, à essência da ampliação de direitos em seu sentido mais amplo.

Gostaria de concluir com um tema muito sensivelmente ligado à dinâmica europeia dos direitos humanos. Diversas organizações espanholas de vítimas do franquismo têm encontrado na Justiça argentina o caminho mais efetivo para abrir processos contra os repressores da Espanha ditatorial. Seu comentário.

AV - Reforça minha análise sobre o compromisso da justiça e do Estado argentinos direcionado a todos os processos de justiça-castigo, considerando-os como peças essenciais da reconstrução da memória coletiva. É muito meritório que tenha sido uma juíza argentina a que emitiu, no último mês de outubro, a ordem de detenção contra uma vintena de altos responsáveis por essa terrível época da história espanhola.

A verdade e vigência dos direitos humanos é uma e única. E, se certos mecanismos legais espanhóis obstacularizam julgamentos pendentes há décadas, a via argentina é pertinente e correta. Já que os crimes de lesa humanidade devem ser sancionados, os repressores condenados e as vítimas ou seus familiares reparados. Não esquecemos que quando, na Argentina, estavam paralisados por lei os julgamentos, o juiz espanhol Baltazar Garzón os impulsionou a partir da Espanha, conseguindo a detenção e condenação de alguns dos repressores.

Como, por exemplo, Ricardo Cavallo, que sequestrou e assassinou, entre outros, o militante popular argentino e escritor Rodolfo Walsh; as monjas francesas que trabalhavam na Argentina, Alice Domon e Léonie Duquet; Azucena Villaflor, uma das fundadoras das Mães da Praça de Maio. Lamentavelmente, quando o juiz Garzón decidiu investigar estes crimes, ao interior da Espanha foi destituído. Seja na Argentina ou na Espanha... Os direitos humanos são universais e, portanto, não têm fronteiras.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Coordenador da Federação Sindical Mundial debate Cuba, em Santos

Postado: bancários de Santos / Intersindical Central da Classe Trabalhadora

BLOQUEIO AINDA EXISTE, RELAÇÕES CUBA X EUA E AMÉRICA LATINA.

Ramon-Cardona O cubano Ramon Cardona, secretário geral da Federação Sindical Mundial (FSM) na América Latina e Caribe, e integrante da Central de Trabalhadores de Cuba (CTC), vem a Santos no próximo dia 25/2 a convite do Sindicato dos Bancários de Santos e Região e da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora. Cardona participa de debate, aberto ao público, sobre a atual conjuntura política:

O encontro acontece às 19 horas, na sede do Sindicato, que fica na Avenida Washington Luis, 140, Encruzilhada, Santos. Durante a conversa o dirigente da FSM falará sobre a luta da classe trabalhadora e dos povos contra os planos impostos pelo grande capital, os desafios do movimento classista diante da crise internacional, a situação de Cuba em relação aos Estados Unidos e a luta contra o bloqueio imposto pelo imperialismo há mais de 50 anos. 

1º de maio em Cuba

1 de maio em Cuba

O companheiro Cardona tem longa experiência junto à classe trabalhadora no combate aos ataques do capitalismo, que coloca o lucro acima da vida. Além disso, é fundamental ouvirmos seus relatos e análises sobre Cuba, porque boa parte da mídia dissemina informações distorcidas sobre a realidade no país”, afirma o presidente do Sindicato dos Bancários e secretário de Relações Internacionais da Intersindical, Ricardo Saraiva Big.

Após a atividade na Baixada Santista, Cardona segue para encontros com trabalhadores na região de Campinas (interior de São Paulo). “Nós da INTERSINDICAL, que temos compromisso para com um sindicalismo classista, e propomos o socialismo, como um modelo de sociedade diferente em favor dos trabalhadores e trabalhadoras e dos povos empobrecidos por este sistema capitalista, temos uma grande tarefa a realizar”, ressalta Big.

"TRABALHADORES DO MUNDO UNI-VOS" (Karl Marx)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Stédile não acredita em impeachment de Dilma

Postado: Rede Brasil Atual

Ouça aqui:

Stédile não acredita em impeachment de Dilma

João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST, não vê possibilidade de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, acredita que a política implementada pelo PT no governo federal se esgotou e que os bancos e o setor agromineral é que mandam no país. Para o líder sem-terra há interesses políticos e econômicos por trás das denúncias contra a Petrobrás mas reclama da falta de transparência sobre aos royalties da empresa. Stédile promete batalhar pela reforma política e pela democratização dos meios de comunicação, critica a guinada à direita na composição da equipe ministerial da presidenta Dilma e traça estratégia para a luta contra a privatização da Caixa Econômica Federal. O uso excessivo de agrotóxicos no Brasil, a falta d'água e o acampamento numa fazenda em Goiás de um senador do PMDB do Ceará, também são temas da entrevista exclusiva que Stédile concedeu à Rádio Brasil Atual após análise de conjuntura político-econômica do Brasil que fez nesta segunda-feira (09/02), no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região. Reportagem Marilu Cabañas. Foto: Brasil de Fato.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Quando a execução sumária é legitimada como gol de placa

Escrito por Cidinha da Silva

Postado: Correio da Cidadania

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Doze meninos e homens negros executados pela polícia baiana com tiros na nuca. Havia marcas de tortura como braços quebrados e olhos afundados, mas poderia ser obra da polícia paulista, alagoana, carioca, pernambucana. São práticas disseminadas pelo país. O mais novo tinha quinze anos, o mais velho 27.

Uma chacina não é só mais uma chacina, não deveria ser. Chacina praticada pelo braço armado do Estado é a falência total da política de segurança pública e dos valores republicanos, violação de direitos humanos.

A novidade desta foi o discurso público do governador recém-eleito, caracterizando-a como operação exitosa da polícia que mata preventivamente. Foi mais longe o chefe maior da polícia, em manhã inspirada pela crônica policial que banaliza e desrespeita a vida de pessoas que pagam impostos e o salário da polícia que mata – quando deveria protegê-las. O mandatário definiu a chacina como um gol dos policiais artilheiros, que decidem (matar) em segundos e mais acertam do que erram.

Testemunhas amedrontadas do Cabula, bairro do assassinato coletivo, por sua vez, disseram que os doze meninos e homens estavam desarmados, não houve confronto, eles foram rendidos e espancados antes de serem conduzidos a um campo de barro, cercado por matagal, e lá executados.

Como o governador é de partido de esquerda, houve gente declarando saudade dos tempos truculentos de ACM. Brincadeira de mau gosto tão cruel quanto a metáfora futebolística de Rui Costa.

O governador metido a cronista respondeu irônico à pergunta feita em entrevista coletiva sobre o possível susto que a violência da operação poderia causar aos turistas paulistas, habitués do carnaval baiano. Atacou a segurança pública do estado sudestino, dando a entender que turista paulista está acostumado com a violência, pois São Paulo apresenta recorde de roubos a caixas bancários. Como sabemos que a polícia executora alegou que os doze rapazes chacinados iriam praticar assalto a bancos, não seria leviano inferir do contexto que os baianos-negros foram mortos (preventivamente) para proteger os turistas-branco-paulistas. É público também que são os turistas brancos de São Paulo que inundam o carnaval baiano em busca do decantado exotismo da Bahia negra. O intertexto racista do discurso governamental é tão macabro quanto a aplicação de pena de morte aos jovens negros.

O secretário de Segurança Pública de São Paulo não deixou por menos e chamou o governador baiano de grosseiro e ignorante (a troca de farpas lembrou uma briga de fotonovela). Revelou que o índice de criminalidade da Bahia é quatro vezes pior do que o de São Paulo (aspecto da ignorância). Concluiu que as declarações do mandatário nordestino desrespeitavam o carinho que os paulistas têm pelos baianos e a importância que o turismo tem para a Bahia (aspecto da grosseria). Pronto! A supremacia geopolítica de São Paulo encerrou o papo. Até a tréplica, lógico, quando o coronel-moderninho das metáforas futebolísticas responderá ao coronel-robocop da metrópole que despreza nordestinos.

E os doze moços mortos, cadê? Sumiram no discurso volátil e popularesco dos assassinatos justificados pelo combate à criminalidade.

E as famílias das vítimas? Ninguém as escuta, ampara, indeniza. São vítimas do artilheiro-matador num jogo pavoroso, comprado, no qual o perdedor já está definido antes do cara ou coroa do juiz. Uma voz isolada tem nome, sobrenome e endereço, uma senhora, não um jovem irmão ou primo de vítima que pode ser a próxima vítima. A avó de Natanael de Jesus Costa (17) grita na porta do hospital que o neto fora levar pizza à casa da namorada, próximo ao campo de barro, palco da encenação do combate na noite do crime. O menino sumiu de casa e reapareceu na lista de corpos a serem reconhecidos no IML.

E o grosso da população dos bairros pobres e miseráveis, o que faz? Repete como papagaio o discurso de legitimação da morte ouvido nos programas sensacionalistas da TV-caça-bandidos. Julgam que, ao se aliarem aos mais fortes, aos donos das armas, receberão proteção, pois são trabalhadores e os outros são bandidos. Que nada. Ninguém, ninguém é cidadão! E o gosto do sangue das vítimas só chegará à boca e aos olhos dos apoiadores das chacinas quando os tiros ceifarem a vida dos meninos criados por suas famílias e pela comunidade, aqueles que viram crescer e que buscavam pizzas para a namorada, ou foram vencidos pela dependência química, ou pela pressão ostensiva e de ostentação do tráfico. Sempre meninos queridos, que se transformarão em corpos estendidos no chão.

Nenhuma dessas doze mortes se justifica, seja qual for a ficha criminal de quem a tinha, e ainda menos atesta o sucesso de uma operação policial. Uma operação que resulta em doze mortos é arbitrária e ilegal. É catastrófica. O policiamento ostensivo deve preservar a vida, e não eliminá-la escusada por tecnicalidades explicativas.

A sobrevivência de jovens negros está em jogo diante da construção racista do suspeito preferencial. Isso já é inadmissível. Mais temerário ainda é que um governante venha a público legitimar a matança como “gols de placa” que eternizam policiais-artilheiros nos bairros populares e desprotegidos que não podem e não devem ser oficializados como estádios de futebol, nos quais se pratica tiro ao alvo negro e jovem, como quer o boleiro-governador.

Cidinha da Silva é escritora e mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

Foto: Morgana Damásio, em manifestação de 2014 contra o genocídio da população negra, promovida pela corajosa e destemida campanha REAJA OU SERÁ MORT@!, na cidade do Salvador, Bahia.

Publicado originalmente em Nota de Rodapé - http://www.notaderodape.com.br/2015/02/quando-execucao-sumaria-e-legitimada.html