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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Impunidade dos EUA: o Golpe de 64, Bush, Operação Condor, a Comissão da Verdade e as guerras da Síria e Iraque

ESCRITO POR RAMEZ PHILIPPE MAALOUF

Postado: Correio da cidadania

x120514_golpe64_1.jpg.pagespeed.ic.LFDuCM2q_UAos poucos, as suspeitas de que o presidente João Goulart (“Jango”), deposto pelo golpe de Estado de 1964, o ex-presidente Juscelino Kubitschek (“JK”) e o ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda foram assassinados entre 1976 e 1977 estão sendo confirmadas com grande riqueza documental. Eles teriam sido assassinados pela Operação Condor, para ser mais preciso, uma espécie de “MERCOSUL do Terror”, conforme está sendo comprovado pelas comissões da verdade na Argentina e demais países do sul-americanos. Falta a confirmação a respeito de Carlos Lacerda, supostamente morto em decorrência de um infarto.

Como a Operação Condor foi inspirada na Operação Gladio, similar europeia do programa de “caça aos comunistas e aos nacionalistas”, perpetrado pela Agência Central de Inteligência (CIA), só podemos concluir que a CIA foi responsável indireta pelos assassinatos destas lideranças brasileiras.

Afinal, quem era o diretor da CIA na época do apogeu da Operação Condor, o ano de 1976? A resposta é George Herbert Walker Bush, uma das figuras mais sinistras do século XX, ao lado de Winston Churchill, Theodore Roosevelt, Adolf Hitler, Benito Mussolini, Lyndon Johnson, Richard Nixon, Ronald Reagan e Neville Chamberlain, entre outros genocidas e ditadores. George H. W. Bush foi diretor da CIA entre 30 de janeiro de 1976 e 20 de janeiro de 1977, sob a presidência de Gerald Ford, que assumira o comando dos EUA após o golpe de Estado que derrubara Richard Nixon, em 1974, que a mídia ocidental denominou de processo de “impeachment”.

Entretanto, Henry Kissinger continuou no poder como secretário de Estado mesmo após a derrubada de Nixon. W. H. Bush, Ford e Kissinger deram os primeiros passos do que nos meios de pesquisas de geopolítica chamam de “roll-back”, ou seja, a brutal “viradeira” para a retomada da hegemonia mundial do poder dos EUA, abalada (na visão dos ianques) pela deposição de Nixon, a derrota no Vietnã, a crise do petróleo, independência na África meridional, a revolução sandinista na Nicarágua, a ascensão da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), o desenvolvimento econômico do Brasil, do Iraque e da Coréia do Sul, a emergência da Europa e do Japão e, por fim, o surgimento de governos aliados da extinta União Soviética (URSS) na Ásia, África e América Latina. Com H. W. Bush na direção da CIA, os EUA promoveram, em 1976:

• a invasão e a ocupação militar do Timor Leste pela Indonésia, apoiada pela Austrália, na qual mais de 180 mil timorenses foram assassinados, iniciada em dezembro de 1975;

• a intervenção da Síria no Líbano, apoiada tacitamente, para “neutralizar” a coalizão “islamo-progressista”, liderada pela OLP, que estava prestes a vencer a guerra do Líbano (e de exterminar os libaneses cristãos), em maio. A intervenção síria favoreceria o ataque da extrema-direita cristã liberal à resistência palestina, culminando no Massacre de Tal al-Za’atar, no qual mais de 2 mil palestinos foram assassinados;

• o assassinato do diplomata chileno Orlando Letelier, opositor da ditadura liberal do general Augusto Pinochet, em Washington D.C., capital dos EUA, em setembro;

• por meio do governo de Pretória, o Massacre de Soweto, em junho, na África do Sul, feroz repressão a um levante de jovens estudantes negros contra o regime de “apartheid”, que exterminou cerca de 500 pessoas, inclusive crianças;

• golpe da Junta Militar da Argentina, em março, que inaugurou uma das mais sangrentas ditaduras da história recente do Cone Sul.

Foi neste contexto internacional que o ex-presidente Juscelino Kubitschek e o presidente e eleito constitucional e democraticamente João Goulart foram assassinados, sendo que o último, morto na Argentina, em dezembro de 1976. Recentemente, no entanto, no Brasil, a Comissão Nacional da Verdade (CNV), da qual um dos integrantes é o obscuro politólogo Paulo Sérgio Pinheiro (PSP), concluiu que a morte de JK na rodovia Presidente Dutra, que liga as capitais de São Paulo e do Rio de Janeiro, foi resultado de um mero acidente de trânsito, em agosto de 1976.

Negativas convenientes?

As conclusões da CNV, da qual Paulo Sérgio é integrante, colidem com o relatório da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo (CMVSP), que afirma que JK foi assassinado por uma conspiração e um atentado político cujo objetivo era eliminar lideranças oposicionistas ao governo autoritário para controlar a abertura política. No caso, JK, com direitos políticos cassados, se articulava com o ex-governador Carlos Lacerda e o presidente deposto João Goulart para por fim à ditadura civil-militar.

No mesmo ano, outros políticos sul-americanos foram assassinados, sob circunstâncias misteriosas, por se oporem às ditaduras de segurança nacional impostas pelos EUA no Cone Sul a partir do golpe de 1964 no Brasil. A Operação Condor teria sido constituída pelos países sul-americanos para reprimir e “neutralizar” a ação dos opositores a estas ditaduras pró-ocidentais. É pouco crível que os EUA não estivessem por detrás da montagem deste aparato repressivo. Há vários informes de que a zona ianque do Canal do Panamá servia como local de coordenação de informação de inteligência de todo o Cone Sul na época.

Qual seria o objetivo da CNV em contrariar a CMVSP e negar o assassinato de JK? Paulo Sérgio jamais escondeu suas simpatias pelos EUA e Israel. Em agosto de 2013, ele presidia a Comissão Internacional de Investigação para a Síria (CIIS), quando ocorreu um ataque químico no subúrbio de Damasco, em Ghouta, de autoria desconhecida, matando centenas de pessoas. Em maio do mesmo ano, uma das integrantes da Comissão, Carla Del Ponte, afirmara categoricamente que o “rebeldes”, que combatem o governo de Bashar al-Assad, eram responsáveis pelo uso de armas químicas na Guerra da Síria. Os “opositores” do presidente sírio são armados, treinados e financiados pelos EUA e seus aliados regionais (Turquia, Catar, Israel e Arábia Saudita) desde o início dos combates, em março de 2011.

No início de junho de 2013, Paulo Sérgio veio a público afirmar que a CIIS não poderia determinar quem usou armas químicas no conflito após a entrega de supostas provas pelos governos dos EUA, França e Inglaterra. Só se podia afirmar, segundo ele, que armas químicas estavam sendo usadas no conflito. Em dezembro, o jornalista ianque Seymour Hersh, que em uma longa reportagem investigativa sobre o ataque a Ghouta, acusou o grupo al-Nusra, filiado à rede terrorista al-Qaeda, pelo uso e ataque de armas químicas no referido subúrbio damasceno, ratificando as declarações de Del Ponte.

No entanto, a mídia ocidental acusava abertamente o governo de al-Assad, sem apresentar provas concretas, pelo ataque químico contra a própria população nos arredores de Damasco. O uso de armas químicas foi considerado pelo presidente-ditador dos EUA Barack Obama uma “linha vermelha”, a qual o governo sírio estava impedido de atravessar, pois, do contrário, haveria uma resposta militar. Analistas internacionais entenderam que os EUA pareciam buscar apenas um pretexto, mesmo que fosse forjado, para atacar a Síria, tal como ocorrera no Vietnã, em 1964, e no Iraque, em 1991 e em 2003, quando a suposta existência de armas de destruição em massa foi usada exaustivamente pelo governo W. Bush e pela mídia ocidental como casus bellipara o extermínio do país mesopotâmico.

Ao desmentir a comissária Del Ponte e aceitar as supostas provas indicadas por Washington D.C., Paulo Sérgio livrava tanto os “rebeldes” da acusação como também permitia a Barack Obama impor a sua versão dos acontecimentos na Síria, abrindo caminho para um bombardeio ianque sobre a Síria, cujo resultado poderia ter sido a deflagração de uma III Guerra Mundial aberta. Isto quase ocorreu de fato, pois a frota ianque no Mediterrâneo chegou a disparar um míssil contra a Síria, no início de setembro do ano passado, que foi interceptado pelos russos.

Ao se negar a reconhecer que JK foi assassinado (assim como Jango e Lacerda), apesar dos abundantes indícios neste sentido, que não param de crescer, a CNV parece tentar isentar não apenas a Operação Condor, mas, sobretudo, a participação dos EUA na repressão das ditaduras sul-americanas. Por tabela, a responsabilidade de George H. W. Bush no assassinato de um ex-chefe de Estado e de um chefe de Estado deposto ficou ocultada.

Com a impunidade garantida, a carreira de crimes cometidos por H. W. Bush não foi encerrada com sua saída da chefia da CIA. Ele se tornaria presidente dos EUA em 1989, e como um ditador ao estilo romano declarou guerras sem pedir autorização ao Congresso, invadindo o Panamá, em 1990, onde mais de 4 mil pessoas foram assassinadas, a Somália, em 1992, e, sobretudo, o Iraque, país em que mais de 150 mil pessoas foram exterminadas pelos bombardeios ianques de saturação por mar, ar e terra, ao longo de 41 dias, no inverno de 1991.

Um legado colonial

Seria, portanto, desnecessário dizer que os EUA têm uma longa tradição de invadir países e derrubar governos que não lhes agradam? Infelizmente, é necessário. É preciso lembrar que os EUA foram o principal autor do golpe de Estado de 1964 que derrubou o presidente João Goulart. Washington D.C. despachou uma frota para atacar o Brasil (a Operação Brother Sam), para motivar os golpistas e também para vergar uma provável resistência ao golpe. E existiam motivos para temer uma resistência, pois as eleições presidenciais se aproximavam e Jango e o seu projeto de “reformas de base”, visando um desenvolvimento econômico e social soberano, gozavam de enorme popularidade. Sem a ameaça de intervenção militar ianque, não haveria como dissuadir uma eventual resistência armada ao golpe (que poderia se esboçar com a mobilização do III Exército, no Rio Grande do Sul). Portanto, mesmo contando com empresários, classes médias e significativos efetivos militares favoráveis à queda de Jango, sem a participação dos ianques a deposição do presidente seria impossível.

Com o golpe dos EUA contra o Brasil, apoiado por setores do empresariado, dos militares e das classes médias, em 1964, inaugurou-se o ciclo de ditaduras de segurança nacional no Cone Sul. Com tais ditaduras, as forças armadas destes países foram convertidas pelos EUA em forças de ocupação militar estrangeira, dando prosseguimento às diretrizes geopolíticas traçadas pelo geógrafo ianque Nicholas Spykman para a contenção da URSS e o controle da Eurásia. Por meio destes governos antidemocráticos, Washington D.C. promoveu sua guerra contra as políticas econômicas nacional-desenvolvimentistas sul-americanas, que ameaçavam a retaguarda imperial, sem a qual seria impossível a projeção de poder sobre a ilha-mundo euro-afro-asiática e, portanto, sobre toda a humanidade.

Hoje, a direita brasileira reconhece a participação dos EUA no golpe de 1964, porém, como há um esforço por uma parte significativa da esquerda brasileira em subestimar e até mesmo negar a participação decisiva dos ianques no golpe e na ditadura civil-militar inaugurada em 1964 (a ponto de manter silêncio com a participação de um partidário de Washington D.C. na CNV), é preciso mais do que nunca resgatarmos as raízes históricas do nosso atual Estado liberal-colonial, que se consolidou a partir dos governos Collor e FHC. Sob o regime liberal, o Brasil se tornou uma das nações mais violentas do mundo.

Ramez Philippe Maalouf é historiador (UERJ), mestre e doutorando em Geografia Humana (USP).

Publicado originalmente no Oriente Mídia.

sábado, 10 de maio de 2014

Mosquitos transgênicos de Juazeiro

ESCRITO POR ROBERTO MALVEZZI (GOGÓ)

Postado: Correio da Cidadania

250xNx090514_dengue.jpg.pagespeed.ic.F6fwUNw_rBEstá sendo divulgado, em nível nacional, como absoluto sucesso, a soltura de mosquitos transgênicos do Aedes Aegypti, como forma de combate à dengue, aqui na cidade de Juazeiro da Bahia. Os números dizem que no, “bairro de Mandacaru, a incidência da dengue caiu 90%”. No bairro do Itaberaba também.

Em primeiro lugar, Mandacaru é um distrito de irrigação, está afastado do centro urbano de Juazeiro. Itaberaba é dos muitos bairros pobres e insalubres da cidade, para onde vieram milhares de trabalhadores da cana e da fruticultura irrigada.

O caso tem sido comentado em nível mundial porque a soltura dos mosquitos – aqui trabalho feito pela Moscamed, mas que traz a larva da empresa britânica Oxitec - foi feita sem os cuidados da precaução. O macho é geneticamente modificado em laboratório, copula com a fêmea e as larvas dessa fêmea morrem. É bom lembrar que as primeiras experiências foram feitas em regiões do Caribe e, aqui, nas periferias de Juazeiro. Portanto, lugares pobres e de terceiro mundo. Enfim, somos cobaias dessa experiência.

O caso já foi dado como sucesso e a CTNBio já liberou a experiência para todo território nacional.

Eu que sou morador da cidade – imagino que também muitos outros cidadãos juazeirenses - estou me perguntando se essa experiência pode mesmo ser considerada o sucesso propalado.

Nunca tivemos tantos mosquitos na cidade – e olha que sempre os tivemos em nuvens – como estamos tendo agora. Nas manifestações de julho do ano passado, a massa que subiu a ponte que une Juazeiro a Petrolina carregava mosquiteiros na cabeça para protestar contra a praga que devora a cidade. Alguns bares abertos colocaram mosquiteiros nas mesas para que as pessoas pudessem sentar-se ali e beber sua cerveja. Uma pizzaria da cidade, também com um espaço aberto, oferece repelentes para os fregueses passarem no corpo e, assim, poderem comer suas pizzas em paz.

Será que a solução está mesmo na transgenia? E o saneamento? Como não ter mosquito numa cidade que não tem saneamento básico, cujos bairros com até 30 mil pessoas têm o esgoto correndo a céu aberto? Claro que precisamos nos livrar da dengue, mas ela não é o único problema da cidade, já que existe uma quantidade enorme de outros mosquitos – muriçoca, muruin etc. – que fazem um inferno em nossas casas e nos espaço públicos.

Nem vamos falar do impacto da transgenia na natureza. Será mesmo que a proliferação dos outros mosquitos na cidade nada tem a ver com a soltura do Aedes transgênico? E os demais possíveis desequilíbrios ambientais foram efetivamente avaliados?

Enfim, seria preciso muito mais cuidado e ampliação do leque de informações, da situação como um todo, para que a CNTBIO decidisse o que já decidiu. Isso é muito bom para empresas, para o poder público que pode lavar as mãos diante do inferno que é viver numa nuvem de mosquitos numa cidade sem saneamento. Para o povo, a solução ainda está por vir.

Roberto Malvezzi (Gogó) possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Classes e luta de classes: burguesia e ditadura

ESCRITO POR WLADIMIR POMAR

TERÇA, 06 DE MAIO DE 2014

Postado: Correio da cidadania

250xNx140314_comissiocentral.jpg.pagespeed.ic.WdVR-1gd1ADesde antes de 1964, grande parte da burguesia e de seus representantes políticos expressava abertamente que, entre um “executivo forte” e “um sistema democrático de economia fraca”, davam preferência ao primeiro. Ou seja, não tinham coragem de falar abertamente de sua preferência por uma ditadura. Mas não escondiam sua opinião de que uma democracia política só seria possível em países economicamente desenvolvidos.

Essa visão de “executivo forte” incluía a capacidade do Estado em promover o crescimento econômico, apoiar a propriedade privada, evitar a interferência estatal na economia e, principalmente, impedir quaisquer movimentos de trabalhadores. Não foi por acaso, assim, que as bandeiras levantadas pelo golpe de 1964, contraditoriamente, além da luta contra o comunismo e as camadas populares, exigiam a redução do que chamavam “estatismo”. E que o empresariado, em especial o grande, apoiou ideológica, política e financeiramente não só a preparação do golpe militar, mas sua realização e sua consolidação através de um sistema ditatorial.

É isso que tem levado muitos estudiosos, mesmo de esquerda, a proclamar que o golpe e a ditadura tiveram um caráter cívico-militar. Ou seja, não teria havido uma ditadura militar, mas sim uma ditadura civil-militar. Talvez, para serem mais precisos nessa linha de raciocínio, devessem falar de uma ditadura burguesa-militar, já que a burguesia foi aquela que realmente lucrou com o regime militar, e se manteve fiel a ele até seus estertores.

Não é difícil demonstrar que os militares adotaram políticas benéficas, quase exclusivamente, a essa classe economicamente dominante. Mas é difícil comprovar que a burguesia, ou qualquer outra classe social, tenha participado politicamente da definição do presidente e dos ministros do regime, especialmente a partir de 1970, quando a escolha do presidente ficou restrita ao voto dos generais de quatro estrelas do Exército.

A partir de então, a militarização da sociedade brasileira ficou evidente não apenas na ocupação da presidência e de vários ministérios por militares. Ela era presente nas Divisões de Segurança e Informação dos ministérios e outros órgãos públicos, que faziam o crivo dos funcionários civis de cargos de confiança e controlavam as políticas setoriais. A escolha dos governadores dos estados dependia dos comandos das regiões militares regionais e dos oficiais que serviam à presidência. As polícias militares estaduais eram controladas por um departamento do ministério da guerra, e comandadas por oficiais generais ou coronéis do exército.

A militarização chegou ao absurdo, por algum tempo, de colocar militares para o exercício da censura às atividades informativas e culturais. O ditador Médici afirmou que não aceitava contestação ao que chamou de “verdade revolucionária”, sustentada pelos militares. E, para afogar qualquer tipo de contestação, modernizou a OBAN, instituindo os DOI-CODIs.

No campo econômico, feita a limpeza monetarista, tratou de produzir o “milagre” de crescer acima de 9% ao ano, meta a que deveriam subordinar-se os empresários. E eles o fizeram prazerosamente, pelo menos até 1973, embora procurassem dar palpites para frear a estatização de empreendimentos voltados para a construção da infraestrutura industrial e de áreas de comunicação.

O “milagre econômico”, porém, fez água com a emergência da crise econômica decorrente do choque do preço do petróleo. Cresceram as cisões e disputas no interior das Forças Armadas e na burguesia. Esta aumentou suas reclamações em relação ao “estatismo”, que se apropriava de parte dos lucros. Mas continuou considerando que o mais importante consistia em manter a ordem, a tranquilidade e a segurança. Portanto, apesar das dificuldades, a burguesia não se interessou em mover sequer uma palha pela democracia.

O grupo militar que assumiu o governo em 1974, com Geisel à frente, tinha consciência de que a crise econômica não poderia ser superada apenas com a mão de ferro ditatorial. Sua “distensão” visava, então, fazer com que a burguesia participasse das decisões para superar a crise econômica. No entanto, como o “milagre” brasileiro tivera por base a associação e a subordinação ao capital estrangeiro, capital que estava no olho do furacão econômico mundial, tal superação se tornara uma missão impossível naquela conjuntura.

Além disso, o capitalismo, em especial o norte-americano, iniciara uma profunda reestruturação econômica e política. Por um lado, erigira o setor financeiro, inundado pelos petrodólares dos países da OPEP, como carro-chefe de exploração dos países periféricos. Por outro, reformulara sua estratégia de luta contra o comunismo. Recuou da onerosa guerra em toda parte, estabeleceu relações com a China para sair do Vietnã, e concentrou seu poderio econômico para derrotar a União Soviética através da corrida armamentista e da debacle econômica

Nessas condições, a bandeira da democracia e dos direitos humanos, que mascarava essa guinada estratégica, colocou em xeque a continuidade dos regimes ditatoriais apoiados pelos Estados Unidos em todo o mundo. Já a proeminência do setor financeiro teve implicações profundas na crise da dívida externa brasileira e levou a pique os novos planos de desenvolvimento econômico da ditadura.

Assim, a “distensão” do grupo de Geisel, mesmo que abrisse brechas para a participação política da burguesia no poder, dificilmente poderia resolver os problemas da crise. Talvez por isso, a principal preocupação da burguesia diante da “distensão” não foi “participar no poder”. Segundo inúmeros empresários de alto coturno, o que os preocupava eram as possíveis brechas que tal “distensão” poderia abrir para a ação dos trabalhadores contra o arrocho salarial. Se pudesse escolher, a burguesia continuaria apoiando sem vacilação as medidas de exceção.

Muitos empresários continuaram financiando os órgãos de repressão política, mesmo quando esses órgãos entraram em rebelião relativamente aberta contra a política do grupo de Geisel. À burguesia, não faziam mossa as práticas de tortura, assassinato e desaparecimento de opositores políticos, comunistas ou não, armados ou pacíficos. Nem a realização de atos terroristas que justificassem o endurecimento ainda maior do regime. Seu temor era o crescente repúdio dos trabalhadores e da pequena-burguesia ao regime ditatorial.

A burguesia supunha que, com a “mão forte” da ditadura, essas classes continuariam inebriadas pelo “milagre econômico” de 1969 a 1973, e pela crença de que o bolo seria dividido logo que o país voltasse a crescer. No entanto, mesmo setores burgueses médios, que sofriam mais diretamente os efeitos da crise, começavam a abandonar o barco da ditadura e a procurar saídas para o regime. Mas o máximo que se permitiam era advogar a redução do grau de arbitrariedade do regime.

Em 1975, o assassinato de Herzog colocou a “distensão”, assim como as diversas classes sociais em reestruturação na sociedade brasileira, diante de uma encruzilhada. Ou o grupo de Geisel desfechava um golpe para valer no sistema repressivo do regime, ou sua retirada estratégica para salvar as Forças Armadas do opróbio seria entravada e revertida, possivelmente tornando o país ingovernável. Mesmo porque a crise econômica se intensificava. A dívida externa se tornara impagável, recrudesceram os déficits na balança comercial, o custo de vida e a inflação. E, para horror da burguesia, multiplicavam-se movimentos trabalhistas e sociais, embora ainda de baixa intensidade.

Em 1976, apesar da intervenção no II Exército e nos órgãos de repressão, as dissenções nas Forças Armadas não foram reduzidas. Os setores militares descontentes com a “distensão” intensificaram suas ações terroristas, incluindo a explosão de bombas em bancas de jornal, na ABI e na OAB. E o DOI-CODI de São Paulo, em articulação com a máfia do delegado Fleury, voltou a assassinar oposicionistas. Matou não só o operário Manoel Fiel Filho, mas também três dirigentes do PCdoB naquilo que ficou conhecido como “Massacre da Lapa”.

Com algumas raras exceções, a maior parte da burguesia continuou apoiando a continuidade da ditadura. Na melhor das hipóteses, alguns de seus representantes faziam críticas tímidas a aspectos da política econômica e atacavam o “estatismo”. Laerte Setúbal, um dos principais expoentes do grupo Itaú e da FIESP, chegou a apoiar o recrudescimento de medidas que lhe garantissem “segurança” no trato das reivindicações trabalhistas. Na mesma linha atual do coronel Boggo, afirmou que “todos nós estamos dentro de uma caldeira em que a pressão já alcança níveis perigosos. E pode explodir em breve, caso não haja uma definição geral”.

Embora diante de uma situação que só poderia ser resolvida por métodos democráticos, mesmo limitados, ganharam supremacia, como notou Rezende, “os representantes do grande capital nacional que não hesitavam em defender o... fechamento político como forma de conter as tensões sociais”.

Assim, a maior parte da burguesia brasileira, fiel à sua particularidade histórica, jamais reconheceu e aceitou a democracia, mesmo limitada. Sempre preferiu uma ditadura, “um executivo forte”, principalmente se viesse desnudada de qualquer estatismo. Isto é algo que não se deve esquecer.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

1° de Maio de Luta na Sé marca dia resistência das mobilizações populares


02 de maio de 2014
INTERSINDICAL - Central da Classe Trabalhadora
Neste ano, o Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores foi marcado pela forte presença dos movimentos de moradia

_DSC1893Ozani Martiniano, educadora da rede pública estadual de São Paulo e candidata à presidência da APEOESP pelo Bloco de Oposição Educação, Movimento e Luta
Centenas de trabalhadores de diversas categorias estiveram presentes na Praça da Sé para a manifestação do 1° de maio, Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores. Organizada pela INTERSINDICAL Central da Classe Trabalhadora, Pastoral Operária, movimentos sociais e outras entidades, esta atividade demarca um contraponto de resistência a centrais sindicais que esvaziam a politização de suas reivindicações para realizar atividades marcadas por acordos com patrões, governos e sorteios de casas e apartamentos, a fim de ganhar visibilidade junto à mídia hegemônica em detrimento das reais demandas da classe trabalhadora.
_DSC1859Ao contrário, o 1° de maio de Luta, como é chamada a atividade da Sé, é marcada pela ação unitária entre centrais sindicais, sindicatos e movimentos sociais realmente alinhados à esquerda e comprometidos com as lutas populares concretas. Neste ano, o ato contou com a expressiva participação dos movimentos sociais de moradia popular, como Terra Livre, MTST, Resistência Urbana, Movimento Anchieta de Luta por Moradia, entre outros.
Dirigente pela oposição do Sinpeem, Laura Cymbalista
Durante a manifestação, diversas falas lembraram os milhares despejos de trabalhadores que aconteceram nos últimos anos por conta das obras para a Copa do Mundo, a higienização de áreas consideradas nobres ou turísticas das cidades que vão receber o megaevento e a precarização dos serviços públicos enquanto milhões de reais são gastos com o torneio da Fifa.
Os 50 anos do golpe militar financiado por empresários que perseguiu diversos sindicalistas e trabalhadores de base também foi muito relembrado, assim como o fato de ainda sermos constantemente atacados com ofensivas que cerceiam nossos direitos, como a Lei Antiterrorismo – que visa criminalizar as mobilizações populares –, e o braço militar do Estado que ainda é responsável por milhares de vidas interrompidas nas periferias do país.
A falta de políticas públicas adequadas para estrangeiros refugiados e a exploração do trabalho escravo destes foi outro demanda importante que também se destacou neste primeiro de maio. Além de manifestações de trabalhadores bolivianos, Ozani Martiniano, educadora da rede pública estadual de São Paulo e candidata à presidência da APEOESP pelo Bloco de Oposição Educação, Movimento e Luta, também prestou solidariedade aos milhares de haitianos e haitianas que buscam o Brasil como tentativa de uma vida melhor, mas "se deparam com a fragilidade do Estado em oferecer direitos básicos a estes refugiados", disse ela.
Nádia Gebara, assessora do Sindicato dos Químicos Unificados de Campinas, Osasco e Vinhedo, também recordou os companheiros colombianos assassinados e outros que ainda sofrem com ameaças por encamparem luta contra a multinacional Nestlé e pediu um minuto de silêncio a todos que participavam do ato.
A respeito das lutas da educação, a professora da rede pública municipal e dirigente pela oposição do Sinpeem, Laura Cymbalista, chamou atenção para a segunda greve apenas neste ano por melhorias urgentes na educação municipal e contra a precarização do trabalho do educador. "Estamos enfrentando um governo truculento, que na nossa última assembleia disse à categoria que ia cortar o ponto dos profissionais para amedrontar e diminuir a greve. Mas a gente respondeu com luta e seguimos em greve", esclareceu.
A atividade também contou com participação músicos populares de viola e rap, apresentação de dança tradicional boliviana e apresentação teatral. Todos e todas que se opõem ao entendimento mercantil de atividades culturais enquanto mera atração para diversão do público e que se reconhecem, portanto, na luta cotidiana da classe trabalhadora.
Veja as fotos do 1 de maio na Praça da Sé
Fotos: Nelson Ezídio
Assista o Vídeo
1 de Maio Classista e de Luta na Praça da Sé com show musical de Rap Revoluncionário! A Intersindical Central da Classe Trabalhadora presente! Por Carlos Roberto Kaká
Por CarlosRoberto Kaká









quinta-feira, 1 de maio de 2014

“O governo Lula foi uma surpresa muito bem-sucedida para os grandes capitais”

Valter Campanato/ABr

dilma_e_Lula_Valter-Campanato_ABr_1

Segundo o sociólogo e professor da Unicamp Ricardo Antunes, o Brasil se mantém como um país marcado pela insegurança e pela superexploração do trabalho

30/04/2014

Do IHU Online

O entusiasmo econômico e desenvolvimentista expresso em planilhas e levantamentos sobre as taxas de desemprego no país, sustentado pelo governo federal nos últimos três mandatos presidenciais, contrapõe-se a uma análise mais crítica quando se tem em conta a conjuntura do trabalho no Brasil. “Naturalmente, sabemos que durante esse período foram criados inúmeros empregos, e, sob este ponto de vista, comparado ao governo Fernando Henrique Cardoso, não há dúvida de que os governos Lula e Dilma foram superiores ao anterior. Digo que no conjunto é negativo, porque o Brasil não sofreu mudanças estruturais no que concerne ao trabalho”, analisa Ricardo Antunes, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. “Aumentaram os empregos formais, o que também é positivo, mas há uma enorme rotatividade da força de trabalho no país, aumentou intensamente o trabalho no setor de serviços, dando nascimento a um novo proletariado precarizado. Trata-se de um emprego em que a precarização é a constante”, complementa.

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes possui mestrado e doutorado em Ciências
Sociais, respectivamente pela Universidade Estadual de Campinas
– Unicamp e pela Universidade de São Paulo - USP - Reprodução

Ao fazer um balanço do mundo do trabalho nestes quase 12 anos de governo do PT à frente do Executivo federal,Ricardo Antunesconsidera que, no geral, a média é negativa. “O triste e recente episódio do enriquecimento de inúmeros setores envolvidos na Copa da Fifa e o monumental descontentamento popular da juventude, deste novo precariado não industrial mas de serviços, desta juventude que pega trem, ônibus e sai da periferia para trabalhar na cidade, demonstra contrariedade a esse processo, o que, por certo, não permite que meu balanço seja positivo”, avalia. “Isto é, ogoverno Lula foi uma surpresa muito bem-sucedida para os grandes capitais. Por isso, vários dos setores querem a volta dele, e não é por acaso que Delfim Neto vive elogiando o governo”, frisa.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Passados quase três mandatos do governo do PT, que em 2014 completa 12 anos ininterruptos, que balanço é possível de ser feito com relação ao mundo do trabalho?

Ricardo Antunes – O balanço, no seu conjunto, é negativo. Naturalmente, sabemos que durante esse período foram criados inúmeros empregos, e, sob este ponto de vista, comparado ao governo Fernando Henrique Cardoso, não há dúvida de que os governos Lula  e Dilma foram superiores ao anterior. Digo que no conjunto é negativo, porque o Brasil não sofreu mudanças estruturais no que concerne ao trabalho. Por exemplo, aumentaram os empregos formais, o que também é positivo, mas há uma enorme rotatividade da força de trabalho no país, aumentou intensamente o trabalho no setor de serviços, dando nascimento a um novo proletariado precarizado. Trata-se de um emprego em que a precarização é a constante.

A formalização, quando existe, também é quebrada pela rotatividade ampliada. Reconheço que o governo Lula tomou algumas medidas que diminuíram o impacto da formalidade, mas é importante lembrar também que, no final do primeiro mandato, ele foi o responsável por um projeto de reforma trabalhista, no âmbito sindical, especialmente, que criava uma brecha para que o negociado se sobrepusesse ao legislado. Portanto, fazendo um olhar de conjunto, podemos dizer que o governo Lula foi menos nefasto que o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Porém, o que se espera de um governo com assento de esquerda é que ele enfrente a questão da superexploração do trabalho. O vilipêndio, as mortes no trabalho, os sofrimentos, as terceirizações, as precarizações, as rotatividades ampliadas, o emprego supérfluo, isso não foi contentado.

Ao contrário do período anterior, em que houve a prevalência de uma economia oscilando entre um pequeno crescimento e a recessão, no governo Lula houve um crescimento econômico, e esse crescimento da economia gerou muitos empregos como estamos vendo até hoje — ainda que a situação econômica atual seja de muito mais turbulência que a do início do governo PT. Esta situação não me permite dizer que foi um governo que trouxe mudanças significativas. Ele aumentou o emprego porque houve crescimento econômico.

É imprescindível lembrar que, ao mesmo tempo que houve uma valorização pequena, mas real, do salário mínimo — pois a lei do salário mínimo no Brasil é risível para quem ocupa uma das dez maiores economias do mundo —, os grandes capitais ganharam muito dinheiro com os governos Lula e Dilma. O triste e recente episódio do enriquecimento de inúmeros setores envolvidos na Copa da Fifa e o monumental descontentamento popular da juventude, deste novo precariado não industrial mas de serviços, desta juventude que pega trem, ônibus e sai da periferia para trabalhar na cidade, demonstra contrariedade a esse processo, o que, por certo, não permite que meu balanço seja positivo.

IHU On-Line - Considerando-se que Lula vem do movimento operário, esperava-se dele iniciativas mais ousadas?

Ricardo Antunes – Se olharmos para o passado de Lula, anos 1970 e 1980, esperávamos atividades um pouco mais corajosas. Lula foi eleito, em 2002, com uma votação expressiva e teria condições, em tese, de tomar medidas mais fortes em defesa do trabalho e de mudanças estruturais. O Brasil se mantém como um país marcado pela insegurança e pela superexploração do trabalho. Apesar de a China e outros países da Ásia, a Zona Franca da América Central — Haiti, República Dominicana — e cidades do México terem níveis de superexploração mais intensos que os nossos, isso não elimina o fato de que temos intensa exploração do trabalho.

Isto o governo Lula não enfrentou, e não o fez em razão dos grandes capitais, do agronegócio, da produção de commodities; mais ainda, o ex-presidente não só abriu o nosso país a uma transnacionalização da economia, como pegou o empresariado pela mão — as empreiteiras, por exemplo — e transnacionalizou, permitindo que essas grandes empresas possam fazer outros trabalhos na América Latina, na África e em outros continentes. Isto é, o governo Lula foi uma surpresa muito bem-sucedida para os grandes capitais. Por isso, vários dos setores querem a volta dele, e não é por acaso que Delfim Neto  vive elogiando o governo.

Quando o Lula e o PT ganharam as eleições em 2002, sabíamos que nem o Lula nem o PT eram os mesmos e, tampouco, o Brasil era o mesmo. Eles já tinham padecido de um trágico processo de desertificação neoliberal, que nos atingiu na década de 1990. Inicialmente com Collor e depois com Fernando Henrique Cardoso.

IHU On-Line – Onde houve avanços e quais pontos da agenda do trabalho permaneceram como estavam, ou pior, recuaram?

Ricardo Antunes – A melhora se deu fundamentalmente no emprego, que decorre do crescimento da economia e da relativa contenção do processo de informalização do trabalho. Mas há coisas negativas. Aumentou enormemente o processo de cooptação das entidades sindicais pelo governo Lula e depois houve mudanças com a Dilma, porque ela não tem um centésimo da experiência sindical doLula — este foi o grande líder sindical do século XX no Brasil, e que sabia negociar com os sindicatos como ninguém.

Em seu governo, criou-se uma espécie de sindicalismo negocial de Estado, em que esta cooptação, esta servidão voluntária não foi por acaso. Lula expandiu uma medida tomada por Getúlio Vargas no final dos anos 1930, estendendo às centrais sindicais o recolhimento de imposto sindical, o que faz com que algumas centrais sindicais ganhem muito dinheiro do Estado, ao qual a Central Única dos Trabalhadores – CUT sempre disse ser contra, mas aceita, recebe e utiliza tais recursos.

Esse é um ponto muito nefasto do sindicalismo, quer de base, quer das centrais sem autonomia política, sindical e financeira, pois cria um sindicalismo negocial que depende do Estado, e se amanhã muda o governo, essa medida cai, o sindicalismo chapa branca vai ficar sem recursos.

Esse foi um ponto muito negativo, sem falar dos aspectos mais gerais, por suposto, que são decisivos. Lula preservou o superávit primário que marca a política econômica neoliberal, abriu a produção dos transgênicos, incentivou a produção de commodities; houve uma espécie de regressão do Brasil à produção da nova divisão internacional do trabalho, em que aceitamos e nos sujeitamos à produção de commodities, minérios, etanol e soja.

Evidentemente, as rebeliões de junho mostraram que a “res-pública” no Brasil tornou-se uma “res-privada”. Há uma diferença: o tucanato realiza a privatização selvagem; o PT realiza a privatização branda. Por exemplo, a Petrobras e sua crise com o pré-sal, os aeroportos. O tom é diferente, mas no substantivo ambos os governos privatizam. Essa é a triste realidade e conta como déficit do governo do PT.

IHU On-Line - O PT surge no movimento sindical. Nesse sentido, de que maneira esses 12 anos de Lula e Dilma reorganizaram a forma de atuação dos sindicatos? Os movimentos perderam força de oposição ou seguem firmes na defesa aos trabalhadores?

Ricardo Antunes – Primeiramente, gostaria de repetir que o governo Lula conseguiu um complexo processo de cooptação das centrais sindicais, especialmente a CUT, e também, em um primeiro momento, a Força Sindical; no entanto, agora com a Dilma, ensaia movimentos de contestação. Há um problema mais de fundo, que é uma mudança profunda no mundo do trabalho, uma nova morfologia do trabalho, uma classe trabalhadora mais jovem em muitos setores, há um novo proletariado no campo dos serviços que se expande sem parar. Este novo proletariado mais jovem está muito mais à margem da representação sindical.

Por exemplo, enquanto há sindicatos fortes, como dos metalúrgicos e dos bancários, não há essa força nos call centers, no telemarketing, nos setores de fast food e supermercados, entre outros. Isto cria uma dificuldade muito grande, que é um certo descolamento entre o sindicalismo de uma era na qual imperava o operariado herdeiro da fase taylorista-fordista para um outro proletariado que não se vê representado na estrutura dura da forma de organização sindical. Isto ocorre, inclusive, porque muitos destes serviços são terceirizados e quase a totalidade destes trabalhadores está fora dos marcos da representação sindical. É um problema complexo que os sindicatos vão ter que enfrentar, mas não só no Brasil, é um fenômeno que marca o sindicalismo dessa virada do século XX para o XXI em escala global.

IHU On-Line – Na opinião do senhor, quem ocupa esse espaço forte de mobilização e pressão social que antes era exercido pelos sindicatos?

Ricardo Antunes – São duas alternativas. A primeira vem de um vazio (lembre-se de que pesquisas apontaram que mais de 70% dos jovens que participaram dos levantes do Brasil eram de estudantes que trabalham, trabalhadores e jovens que estudam) de representação, e a rua, como praça pública, tornou-se o espaço cotidiano da revolta. O segundo espaço que se ampliou foi ante a ausência de sindicatos e o nascimento de movimentos sociais, que, de certo modo, são muito mais livres do que a estrutura sindical atrelada ao Estado. Nos anos 1990 e 2000 surgiu uma miríade de movimentos dos sem-teto, barrageiros, pessoas da periferia, que têm representado a organização não propriamente no espaço de trabalho, mas dos assalariados. A atuação desses cidadãos oscila entre o vácuo, a praça pública e os movimentos sociais, o que mostrou a explosão belíssima dos movimentos sociais do ano passado e que vão voltar agora — porque não pararam de vez — por ocasião da Copa do Mundo.  

IHU On-Line – Qual o grande desafio do mundo do trabalho no século XXI?

Ricardo Antunes – O mundo do trabalho é uma espécie de anatomia da sociedade. O trabalho que estrutura o capital, ou seja, aquele que é desenvolvido para estruturar tal sistema, desestrutura a humanidade, o social do trabalho. Portanto, o trabalho, se quiser reestruturar a vida humana — tendo um ponto de partida para que nós possamos ter um tempo livre dotado de sentido, com fruição, tudo aquilo que é desejável e necessário para além do trabalho —, precisa destruir o capital. Esta é a chave. É por isso que há rebeliões do trabalho em Portugal, na Grécia, na Espanha, no Leste Europeu e nos países asiáticos. Há importantes greves do setor automobilístico na Índia, há greves diariamente na China. Li, recentemente, na imprensa que a China pretende devolver milhões de trabalhadores ao campo, mas eles não têm o que fazer no campo. Como um jovem que saiu do campo e foi viver nas cidades chinesas vai aceitar voltar para o campo? Tudo isso faz parte do primeiro desafio.

O segundo desafio é que o capitalismo fez com que a precarização, pela via da informalidade e da terceirização, que são fenômenos aproximados, mas não idênticos, se tornasse a regra e não a exceção. É preciso, aqui e agora, impedir esta regra, evitando que a terceirização se amplie, e mais, lutar pelo fim dela. Nenhum trabalhador em uma escola ou universidade pública, por exemplo, prefere ver o outro trabalhador com mais direitos. Temos que impedir que a terceirização, a precariedade e a informalização sejam a regra. Isso implica a reorganização dos trabalhadores, para os quais os sindicatos não são carta fora do baralho.

Do século XIX para o XX, o mundo do capitalismo mudou profundamente. Nasceu e se desenvolveu a grande indústria, que já era visível na segunda metade do século XIX, e que se expandiu no século XX com o taylorismo  e o fordismo  de grande intensidade. Aquele antigo sindicato do século XIX, herdeiro de um trabalhador dos ofícios, das manufaturas, se mostrou incapacitado, e surgiu o sindicalismo de massa. Nós transitamos do século XX para o XXI, em que esta indústria taylorista-fordista, que se mantém em vários setores, não é mais a tendência dominante, pois o que é dominante atualmente são as empresas flexibilizadas e liofilizadas, que nasceram com o toyotismo  no Japão e a chamada acumulação flexível.

Este tipo de empresa, que se expandiu pelo Ocidente, estruturada nas cadeias produtivas globais, sofreu um processo de desterritorialização e fragmentação, em que uma empresa com mais de 20 mil trabalhadores está divida em centenas de unidades esparramadas pelo mundo. Isso cria a necessidade de um novo sindicalismo mais aparentado com os movimentos sociais, que seja consentâneo com a nova morfologia do trabalho no século XXI. Não é possível que a humanidade social que trabalha veja a destruição de seus direitos, construídos ao longo de séculos, e se renda. Ainda bem que estamos vendo que a temperatura das manifestações sociais no mundo inteiro está aumentando continuamente.